domingo, 12 de junho de 2011

A inconsciência ou consciência de crescer... - Publicado no Correio do Minho em 08/02/2011

Basta sentarmo-nos um pouco, num qualquer local movimentado e público e observarmos o crescimento. Das árvores, dos pássaros e dos pequenos habitantes da terra e das pessoas, todos eles em sintonia com a vida, ou seja, nascer, crescer e morrer… exactamente por esta ordem. De vez em quando, ouvimos o parceiro do banco do jardim nos dias de sol, ou na esplanada resguardada nos dias de chuva, a comentar que ouviu dizer que o filho da vizinha de um amigo da terra e, parente afastado da esposa querida e falecida, não tinha chegado a crescer, morrendo quase a partir da data em que nasceu, para aí com quinze ou dezasseis anos, com um enfarte provocado pelo consumo excessivo de drogas.
Ora bem, não é idade para ninguém morrer, ainda antes de crescer e ter oportunidade de fazer asneiras, dar com a cabeça nas paredes e ter filhos, se bem que, meter-se nas drogas já era uma parvoíce das grandes e, que, mais cedo ou mais tarde, podia transformar-se em algo bem pior que a morte individual, pois estar vivo com essa dependência era o mesmo que estar morto e enterrar a mãe, o pai e mais alguns junto com ele, tal a velocidade com que lhe consumia os recursos e a alma. De qualquer maneira, depois de se deixar enterrar nesse mundo, era uma questão de tempo até deixarem de existir sem fazer nada para o evitar…
Mas estávamos a falar de crescimento! E eu adorava ficar ali, tipo lagarto ao sol plantado, a olhar para os botões das roseiras que no dia seguinte se transformavam em belíssimas flores, para o lento arrastar dos caracóis nas folhas húmidas, um verdadeiro petisco para alguns esquisitos gostos, para as lagartixas a porem as cabeças de fora dos buracos e para as crianças, a correrem pela relva livres e aos gritos, como se a placa lá colocada a proibir o decalque, fosse um simpático convite a fazê-lo. Claro que os jovens papás, de mão dada e sentados no banco em frente, riam-se muito, achando piada à formidável capacidade das criancinhas destruírem o jardim e, simultaneamente, se divertirem tanto. Orgulho e algum inchar de vaidade, pela sua própria originalidade de serem eles mesmo a porem os filhotes no jardim, levantando-os no ar e ajudando-os a ultrapassar o arame insignificante e estúpido lá colocado.
E depois, cresciam. E já não eram os papás que os levavam, mas eles próprios pelo seu pé, indiferentes aos protestos da velha mulherzinha que estava encarregue de olhar pelo jardim, sempre a tentar correr com eles e, principalmente, com as cenas ditas vergonhosas que eles faziam alarde em mostrar, sem qualquer pudor por quem passasse ou pensasse de outra forma, nomeadamente praticarem a nobre arte do sexo livre durante a noite ou entardecer, ou acenderem cigarros e queimarem colheres com papel de prata para práticas, no mínimo, duvidosas. Enfim, verdadeiros artistas na arte da depravação e auto-destruição, com a agravante de se rirem muito e acharem muita piada a tudo aquilo, exactamente como os papás fizeram há alguns anos atrás. Também era importante o estatuto, o estilo com que se vestiam, seguindo a mesma linha do que tinham visto e aprendido, na escolha das sapatilhas Nike ou das calças Levi’s que, não era de todo relevante se gostavam ou assentavam bem, mas simplesmente se eram as mais caras da loja e melhores que as dos amigos. Se ficavam a cair pelas pernas abaixo, deixando as cuecas à vista como que um apelo à liberdade sexual nas prisões americanas ou não, não era preocupante desde que provocassem inveja suficiente nos outros. Enfim, limitávamo-nos a observá-los a crescer sem emitir opinião, ou acharmos que aquelas figuras ridículas não eram mais do que modas tendenciosas que, como o tempo, também iriam desaparecer.
O que já não se aplicava aos vícios que, ao contrário da moda, iam-se agravando até ao descontrolo total, transformando o crescimento dos jovens em desgaste rápido, embora alguns conseguissem mesmo fazer uma vida paralela ao vício, com casamentos mais ou menos falhados e concepção de filhos, definitivamente errada! Durante anos, até a eles se conseguiam enganar, criando a ilusão de uma normalidade raramente ensombrada por um problema de fácil e rápida solução, quando lhes apetecesse. Quem os ouvia, ficava preso à ideia de que tinha sido mau juiz e abusado da boa vontade dos pobres inocentes…
Depois, os pequenos arbustos transformavam-se em gigantescas e lindas árvores de fruto ou sombra, capazes de proporcionar prazer, paz e alegria a muita gente, as lagartixas continuavam a ser lagartixas, enquanto os caracóis eram comidos e as crianças, que se tinham tornado jovens e depois adultos e, os que tiveram sorte em velhos, sentávamo-nos nos bancos dos jardins, a observar com a calma só agora possível, os novos rebentos a aparecerem em busca do seu espaço e do seu lugar na terra. Alguns encontravam-no outros não… dependia das armas que tivessem para lutar pelos seus objectivos sem olhar para trás ou para o lado, das lições que fossem capazes de aprender e reter e, da forma consciente ou inconsciente como decidissem fazer a “viagem” por este mundo…

sábado, 28 de maio de 2011

A paixão, ou o amor... - Publicado no Correio do Minho em 22/03/2011

Por experiência, ou pelo que vemos nas revistas cor-de-rosa, amar é algo maravilhoso, intenso e eterno. Naturalmente que, quando usamos a cabeça para pensar, percebemos que o amor é muito mais do que isso, ou, um sem numero de outras vezes, não é nada disso! Facilmente nós, os simples mortais, temos dificuldade em aceitar que o amor não se negoceia, não se pensa, não se julga nem se cobra… simplesmente está lá, respira-se, sente-se, sonha-se, imagina-se, em suma, está lá!
Claro que à sempre quem confunda com paixão! A paixão é, segura e indiscutivelmente, a melhor sensação que se pode ter. Em segundos e sem razão, transporta-nos para um outro mundo, onde nos esquecemos com frequência até do nosso nome, quanto mais das inesquecíveis noites de fogo, de raiva, de loucura, onde nos sentimos capazes de tudo e, não poucas vezes, acordámos com uma lágrima no canto do olho. A nostalgia da recordação preenche-nos os sentidos durante alguns dias, ocupamos os nossos pensamentos com planos de repetição, perdemos horas e horas em longas conversas que, no final, não têm qualquer significado a não ser programar mais uns minutos de libido enlouquecido. Mas não podemos nunca deixar de alimentar a chama da paixão, pois ela funciona como as antigas locomotivas… sem o carvão atirado para a fornalha, pára. Assim, convém aos amantes manterem a rédea curta e, jamais permitirem que a chama corra o risco de se apagar, ou que seja alimentada por outro soprador, correndo o risco de perceberem que afinal aquele tão intocável amor era, afinal, só uma tórrida paixão.
Porque amar é muito mais do que isso. É saber ouvir no silêncio, é ver na escuridão, é perceber a cumplicidade com um olhar, é dividir todos os pensamentos incluindo os que magoam profundamente a alma, é existir para servir o outro em todas as horas difíceis ou boas, é estar lá surgindo do nada com um sorriso pronto e nunca, nunca pedir nada em troca. Nem sequer ser amado… porque a paixão, vive-se a dois, sempre! O amor, não… o amor é único, sem paralelos ou sentidos. Existe dentro de cada um de nós, cada um sente-o à sua maneira, e cada um vive-o à sua maneira! Enfim, é algo amadurecido com o tempo, como um vintage de boa cepa ou um sonho que nunca acaba…
Quando somos jovens e, às vezes menos jovens, caímos na ilusão de acharmos que um dia, quando amarmos alguém de verdade, vamos ser sérios, fiéis e eternamente dedicados ao outro. Acreditamos sinceramente nisso, até mesmo quando o céu nos cai em cima e percebemos que, afinal, confundimos tudo, simplesmente porque o amor não é algo que caia do céu ou nasça da terra. Tem que ser construído! Tem que se juntar pedaços de confiança, de amizade, de companheirismo, de humor, de dor, de sexo, de desilusão, de tristeza, de sacrifício, de imaginação e de mais um milhão de “tijolos” diferentes e, lentamente, muito lentamente, colocá-los uns por cima dos outros e construir algo parecido com amor. E, mesmo assim, a maioria de nós não vai conseguir chegar lá…
Em contrapartida, chegámos todos à paixão! Em certos momentos da vida, ela surge repentinamente e ataca todos os movimentos, todos os sentidos e todas as reacções a partir daí. Escrevem-se poemas, livros de prosa romântica, gastam-se cabeças de dedos nos teclados dos telemóveis e pc’s, noites em claro a pensar num ou noutro momento, vive-se as festas e os jantares nas discotecas sempre com um olho colado à porta de saída, suspira-se muito e mente-se muito! Mas claro que vale a pena viver uma paixão, pois sem ela a vida não tem sabor, não tem sal… desde que haja consciência de que o facto de duas pessoas estarem apaixonadas uma pela outra, não significa que se amem. É obrigatório viver a paixão, sentir a paixão e, se houver oportunidade de ultrapassá-la sem mágoas e sem feridas, a porta para o amor fica aberta de par em par. Aí, deixa de ser necessário fingir ou forjar loucuras, calores e lágrimas, bastando ser verdadeiro e igual a si próprio, sem medo de falhar, sem medo de perder, sem medo de ser humano e, como tal, cometer erros. Porque muito mal vai o amor, quando o perdão é só uma palavra dos livros e dos filósofos… a essência do amor, é a capacidade de perdoar os erros do outro sem julgamentos precipitados nem condenações antecipadas.
Concluindo, o mundo e os homens de ambos os sexos vivem numa utopia, acreditando que basta quererem para conseguirem amar. Não é bem assim… como disse antes, o amor dá uma trabalheira monumental, peça a peça montada num gigantesco puzzle que é a mente humana e, acima de tudo, só alguns eleitos têm a capacidade de perdoar! Esses sim sentem, respiram e vivem o amor… e sabem que não existe nada tão transcendental como amar alguém…

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os Loucos ou o nosso outro lado - Publicado no Correio do Minho em 17/05/2011

Quando pensamos nos loucos, pensamos em hospitais psiquiátricos onde são internados aqueles que, por este ou aquele motivo, perderam a noção da realidade e mergulharam num mundo só deles. Um mundo fechado e estranho para a maioria de nós, mas tão real e normal para os que lá estão… sendo que, por muito que os médicos, apoiantes e voluntários que todos os dias se esforçam por compreendê-los, estejam só a desgastar as suas próprias capacidades. E nem sequer está em causa a sensibilidade ou a dedicação com que encaram cada novo dia, sempre um passo à frente do desânimo e da descrença, pois a maioria de nós desistiria ao fim de algum tempo, ou, nem sequer teríamos coragem para tentar…
Mas esses, são os loucos que conhecemos, ou desconhecemos, mas sabemos que existem. Onde tudo se torna mais estranho e inexplicável, é no momento em que os loucos que não estão identificados como tal, se revelam como gente normal e saudável, e cometem actos de loucura tão insanos que nem os ditos loucos conseguem explicar. Vamos contabilizar todas as vezes que nos arrependemos, um dia depois, ou mesmo uma hora depois, de atitudes que tomamos que, até nós próprios, temos dificuldade em acreditar que fomos nós que as tivemos, e não outro qualquer. Chegamos mesmo a duvidar da nossa sanidade mental e a perguntar-nos como foi possível tal coisa nos passar pela cabeça… e começamos a ter medo. De errarmos e não nos darmos conta! De prejudicarmos quem amamos, por ignorância, de não sermos capazes de funcionar razoavelmente e, pior do que tudo isso, algo falhar no nosso cérebro, transformando-nos nos tais loucos identificados como tal: daqueles que falam sozinhos enquanto caminham pela rua, ou pedem cigarros a todos com quem se cruzam, ou se riem como perdidos sem qualquer motivo. Bem como, daqueles que preferimos virar a cara e passarmos para o outro lado da rua, evitando cruzamentos que nos embaraçam…
Se pensarmos um pouco, iremos descobrir que também nós temos um pouco de loucos ou, pelo menos, temos coisas que não conseguimos perceber, nem justificar. Se assim não fosse, como poderíamos aceitar o que estamos a fazer com os nossos jovens? Passamos a sua adolescência a criar-lhes a ilusão de que vão poder ter a vida que desejam, desde que para isso se apliquem, estudem e não cometam erros irreparáveis. Pura mentira que, bem lá no fundo, nem nós acreditamos, à medida que os vamos vendo a saírem das faculdades cheios de boa vontade e ilusões rapidamente desfeitas, mal tentam encontrar trabalho num mercado cada vez mais competitivo e agressivo. Quando deixamos de sustentar as nossas famílias, desbaratando os poucos recursos que dispomos, em vícios, jogos ou satisfação pura dos nossos desejos, não estaremos a ser tão loucos como os registados como tal? Quem define onde começa e acaba a loucura dentro de cada um de nós?
Aceitemos ou não, todos nós vemos, todos os dias, a capacidade do ser humano em magoar o seu semelhante. Nos jornais ou televisões, em notícias mais ou menos fidedignas, facilmente constatamos a ligeireza com que se fazem guerras, se destroem os mais fracos e desprotegidos, se explora a credulidade dos distraídos, se deixa morrer à fome milhões de crianças espalhadas pelo mundo! Quem precisa de mais loucura? Não nos podemos esconder num buraco, olhar para o lado ou simplesmente atravessar a rua para o outro passeio… porque, queiramos ou não, todos somos coniventes, e fazemos parte desta loucura comum!
Os fingidos inocentes delegam, totalmente, a responsabilidade dessa loucura para os outros, para os governantes ou para os ditos ambiciosos senhores do poder. Mas sejamos honestos… e a nossa quota-parte? A treta dos “filósofos” de que a nossa liberdade começa, quando a dos outros acaba, encaixa-se em que momento? No momento em que sabemos que, ali mesmo ao nosso lado, está alguém que podemos ajudar e, mesmo assim, fazemos de conta que não percebemos?
A verdade é que todos nós patrocinamos a loucura, todos os dias, na nossa dimensão e na nossa realidade… e fingirmos que não vemos ou não sabemos, não vai fazer com que ela desapareça…

sexta-feira, 13 de maio de 2011

E se as arábias fossem aqui? - Publicado no Correio do Minho em 08/03/2011

Se… de um dia para o outro, o povo dos brandos costumes se revoltasse contra tudo e contra todos, espalhando o caos e a desordem, quem teria a coragem de criticá-lo?
Lentamente, à medida que avançamos no tempo, os sinais de inconformismo vão-se acentuando, principalmente visíveis na nova vaga de emigrantes, desta vez os mais preparados, e no aumento assustador da falta de confiança e respeito nas instituições e nas pessoas que nos governam. Ou seja, enquanto uns procuram o seu “El Dorado” fora das fronteiras do nosso cantinho à beira mar plantado, levando com eles conhecimentos e capacidades de trabalho invejáveis, outros com menos espírito de aventura e mais conformados, ficam cá dentro a lamuriar-se pelas esquinas, acusando de sorte ou compadrio qualquer um à sua volta que consiga evoluir e vencer.
Ora bem, todos os que tenham vencido na vida, lá fora ou cá dentro, sabem que a sorte é composta por duas palavras – trabalho e oportunidade – divididas em proporções de nove para um. O que eles talvez não saibam é que as oportunidades não são iguais para todos, não faltando casos de pessoas com extraordinárias capacidades, desbaratadas durante anos e anos em ocupações diametralmente opostas às suas aptidões, com a consequente estagnação que daí advém… no reverso da medalha, também temos os que são manifestamente incapazes de fazer o mínimo que lhes é destinado, sem se queixarem ou sentirem estar a ser explorados pela sociedade ou por empresas desumanizadas.
Quando nasce, o sol nasce para todos, rezam os homens de boa vontade e os crentes na igualdade. Mas todos sabemos que, para alguns, descendentes directos de tios, primos ou compadres bem colocados, as oportunidades já estão criadas ainda antes de surgirem as necessidades, corrompendo decisivamente a balança e gerando desconfianças e, muitas vezes, ódios insanos em corações e cabeças que só queriam ter direito ao seu lugar. Depois começam as lamúrias, os milhares de mail’s a circular acusando estes e aqueles de serem corruptos, de receberem pelo seu suposto trabalho rendimentos a raiar o absurdo, de empregos no mercado de trabalho sem qualificações para tal, enfim, generaliza-se a revolta e as vozes em surdina, desconfianças e medo do futuro.
Mas, afinal, quem tem que ter medo? Os que se querem envolver na corrupção, aproveitando o que lhes cai no colo sem se preocuparem de onde, ou os que anseiam por chegar aos mesmos lugares, sabendo que têm que sacrificar princípios, ensinamentos e ideais? Porque não haja ilusões! Todos nós nos esquecemos facilmente da revolta no momento em que conseguimos ter o nosso lugar ao sol…
A corrupção insinua-se por todo o lado. Entra na sociedade, nas empresas, nas instituições, nos governos, e até na cabeça de cada um de nós, como um óleo viscoso que circula sem sabermos bem por onde, e que não conseguimos travar… Insinua-se dentro dos nossos corações, a maior parte das vezes porque sabemos que, se assim não for, temos o nosso destino traçado… Quantos de nós não usamos já de conhecimentos de pessoas bem colocadas, para conseguirmos uma vantagem qualquer?
A alternativa é o desânimo, o desemprego, a emigração ou a tão falada revolta popular. Que não acontece no nosso simpático país, e ainda bem, porque somos um povo dado à boa paz… e entrarmos numa revolta popular não iria resolver nenhum dos problemas da nossa sociedade, pelo contrário, iria criar novos por cima dos já existentes. Milhares de jovens a sair das universidades directamente para o desemprego, créditos feitos nos momentos de ilusão e agora impossíveis de cumprir, casas devolutas sem que ninguém as possa pagar, um aumento assustador de utilizadores da sopa dos pobres e milhares de pessoas a viverem abaixo do limiar da pobreza… destruindo, definitivamente, a nossa famosa classe média.
Resumindo, a nossa sorte é não sermos árabes, porque embora a motivação para a revolta seja a mesma, felizmente, a herança dos nossos pais e avós é tão forte, que vamos, entre um bailarico e um copito de vinho tinto, nos mantendo alegremente à espera de melhores dias…

domingo, 8 de maio de 2011

Dinheiro, Sexo e Poder - Publicado no Correio do Minho em 03/05/2011

Os três pilares que sustentam o mundo. Na verdade, olhando para cada um deles, individualmente, facilmente percebemos a sua força conjunta, achando que se conseguirmos atingir um deles, será o suficiente para nos sentirmos realizados.
Alguns de nós, passam uma vida inteira a tentar enriquecer, sem se preocupar muito com quem atropela ou se o dinheiro que ganha é de forma ilícita ou não. Simplesmente, torna-se, com o tempo, um hobby como qualquer outro, deixando-nos confusos quando as coisas não acontecem como queremos, ou quando outros se revoltam pela forma como são usados e explorados. Sentimo-nos mesmo superiores e nascidos para liderar, comandar, ser ricos, achando estúpidos e ridículos, todos os que se colocarem contra essa verdade! Criamos negócios perfeitamente legais, pagamos salários mínimos a quem trabalha, esticamos as horas de trabalho até ao limite, aproveitando a precariedade dos empregos e, se a sorte ajudar, enriquecemos. Ou então, entramos em negociatas por baixo da mesa, perfeitamente ilegais e penalizadoras para uma infinidade de pessoas, enchemos os bolsos de luvas de todas as cores, abrimos contas bancárias secretas em paraísos fiscais e enriquecemos na mesma, embora pouca gente saiba disso. O dinheiro não fala, não diz de onde vem, nem para onde vai… e que ninguém tenha ilusões de quem fica com ele! O povo diz que os rios correm sempre para o mar… ou seja, o dinheiro corre sempre para quem já tem dinheiro, tornando-os cada vez mais ricos, em detrimento de quem tem pouco. A capacidade de o mundo gerar riqueza, ou dinheiro fresco, está estagnada há muitos anos, tendo como lógica consequência a simples divisão da riqueza existente. Simplesmente, muda de mãos, invariavelmente, para as mesmas…
Já o sexo é de todos! Pobres, ricos e remediados, conseguem ter o seu sexo em determinados momentos da vida. Mesmo que saibamos que consegue ser o motivo de uma monumental máquina de fazer dinheiro, o sexo continua a ser um escape, ou até mesmo o único prazer terreno para inúmeras pessoas. Em tempos idos, era visto como algo pecaminoso quando praticado por outros motivos que não fossem a procriação, mas, à medida que o mundo foi evoluindo, passou a ser olhado com bonomia pela maioria das pessoas, hoje capazes de aceitá-lo, mesmo sem certezas de futuros em conjunto, e com combinações macho-fêmea mais variadas e complexas. Ainda assim, mesmo socialmente aceite, a verdade é que um acto que deveria ser o ex-líbris do prazer, venerado pelo seu enorme potencial efectivo e amoroso, é denegrido e tratado com desprezo por uma imensa quantidade de gente, sendo levado ao extremo nas violações ou actos de pedofilia. Resumindo, dos três pilares que sustentam a terra, o sexo, embora seja o mais acessível, leva, em determinadas situações, algumas pessoas a transformarem-se em seres abjectos e abomináveis, com cérebros só comparáveis com o das minhocas, ou algo parecido.
Por fim, o poder. Desde tempos imemoriais, o poder é desejado por muitos e conseguido por poucos. Alexandre “O grande”, Carlos Magno, Jesus Cristo, Adolf Hitler, são alguns nomes que ficaram para a história por terem conseguido levar o poder ao seu mais alto estatuto. Muitas vezes, nem sequer importa se têm dinheiro ou sexo, mas chegam ao topo pela firme convicção das suas ideias e pela forma como cativam apoiantes. Na verdade, ninguém tem poder em lugar nenhum, se não tiver um grupo de seguidores cegos e fanatizados que sustentem a sua posição, ou seja, para se ter poder, é fundamental que existam pessoas que sejam humilhadas, exploradas, chantageadas, convencidas, eliminadas. Massa crítica…
Não se pense, no entanto, que só os grandes nomes são capazes de atingir o tão almejado poder, já que, todos nós, num ou noutro momento, a diferentes níveis, sentimos o seu gosto agridoce. Quando, nas nossas próprias casas, nos nossos próprios empregos, nos nossos próprios grupos de amigos, temos a oportunidade de ter alguém que dominamos, seja de que forma for, estamos a ter o poder nas mãos. A diferença entre os homens, reside na capacidade de saber, ou não, usar esse poder com inteligência, conseguindo os resultados desejados sem atropelar ninguém e, acima de tudo, sem “vender” os seus princípios…

domingo, 1 de maio de 2011

Sucesso versus Intimismo - Publicado no Correio do Minho em 22/02/2011

Está generalizada a ideia, junto dos pensadores das grandes empresas e não só, que o sucesso está directamente relacionado com a divisão dos macro objectivos necessários à sua subsistência pelo número de máquinas ao seu dispor e, pela capacidade produtiva de cada uma individualmente. A verdade é que não é exactamente assim… não é, porque as máquinas modernas pensam, sentem, engravidam, riem e choram e, nem sempre estão na sua máxima capacidade para produzir, principalmente depois de descobrirem que afinal, a suculenta e fresca cenoura, não passa de uma ilusão plastificada. Claro que a força está em quem domina o poder, ou seja os iluminados, que imediatamente pensam numa nova forma de pintar a cenoura e, durante mais algum tempo, manter as máquinas entusiasmadas, garantindo o tão almejado sucesso.
Mas será possível atingir esse sucesso sem intimismo? Se, por algum motivo, não é alimentada a proximidade e a confiança entre os dois lados do negócio, dificilmente o sucesso acontece. Exactamente o que se passa, numa relação entre duas pessoas, sejam quais forem os contornos em que o negócio é feito. Claro que o tempo é um factor fundamental, pois sem ele, o intimismo nunca passará de uma utopia! E sem intimismo não haverá sucesso! Daí que seja estranho que os iluminados se preocupem em mudar as máquinas constantemente de um local para o outro, pois se por um lado garantem que não entram “areias nas suas roldanas”, por outro cortam pela raiz a possibilidade de se criar intimismo. E não criando intimismo, logo…
Vamos imaginar uma outra história, num outro contexto, mas firme nos mesmos princípios. Uma mulher e um homem, convictos no desejo de construírem uma relação escrevem as primeiras linhas do seu contrato, baseados na confiança e proximidade, acabando, com o tempo, por se tornarem íntimos. Agora imaginemos que não têm tempo, ou que não consigam confiar um no outro porque preferem jogar pelo seguro e nunca dar o flanco ou, simplesmente, a proximidade era falsa e interesseira. O que acontece a este contrato, a esta relação? Obviamente, o fracasso, ou seja, a antítese do sucesso, comprovada pelos inúmeros contratos que nunca chegam a tornar-se realidade, pois ao não serem oficializados nem testemunhados, não obstante se poupar as despesas iniciais com quintas e festas faustosas, também não garantem a confiança necessária para que o sucesso seja real. Claro que, também é verdade que os custos de um contrato que não chegou a existir, são irrisórios ou inexistentes. Ainda assim, mesmo que o contrato se mantenha válido, oficializado ou não, e não forem alimentadas a confiança e a proximidade, dificilmente poderá vir a ser um sucesso mais se tornando, com o tempo, uma agonia feita de papel mata-borrão. Daqueles que servem para limpar os erros…
Voltemos às empresas, associações e negócios envolventes, visto ser algo bem mais simples de explicar do que relacionamentos humanos, embora até dentro destes gigantes do consumo demasiado habituados a vencer, se utilize com frequência o chavão do intimismo. A diferença entre o sucesso, e a mera tentativa, reside na capacidade de entrosamento dos líderes com as máquinas produtivas, exactamente na proporção que uns conseguem obter resultados e outros não. E que não se faça confusão! As máquinas são as mesmas e, tanto funcionam numa situação de motivação como numa de coacção, embora a projecção dos resultados possa ser mais lenta ou mais rápida, mais sentida ou mais indiferente. Quando os iluminados perceberem que as máquinas não são números, ou melhor, para além de números são também seres humanos, sujeitas a desgaste e desvalorização como qualquer máquina, capazes de ter ideias e conceitos diferentes mas igualmente proveitosos, talvez e, repito, talvez se consiga criar o intimismo fundamental ao sucesso. Enquanto se fizer questão de marcar a distância, separando os cérebros dos iluminados dos braços, pernas e coração das máquinas, o sucesso será só um fracasso!
Naturalmente, a culpa estará sempre sozinha e será sempre dos outros, iluminados ou máquinas, acusando-se mutuamente pela falta de resultados ou pela injustiça das contrapartidas. Um eterno confronto onde ninguém ganha rigorosamente nada, a não ser dar espaço a seguidores do caos e da desordem, sempre prontos a viverem na sombra das máquinas, utilizando-as como armas de batalha. Seja como for e, após infindáveis negociações, a verdade é que nunca conseguem mediar nada, sujeitando-se aos iluminados donos do poder.
Resumindo, chegamos a um impasse! Um impasse que dura desde a revolução industrial e sem fim à vista… simplesmente, porque a confiança nunca se conseguiu impor totalmente. Tanto na vida profissional como pessoal, a verdade é que as máquinas trazem defeitos de fabrico que ao longo da sua vida útil vão provocando avarias, sendo praticamente impossível funcionarem sem falhar… sendo que os iluminados, embora venham embrulhados num papel mais brilhante e colorido são, também eles, máquinas falíveis e perecíveis…

sábado, 23 de abril de 2011

A nossa história, a nossa vida - Publicado no Correio do Minho a 05/04/2011

Escrever uma história é simples…
Alguém disse, um dia, que escrever uma história é simples. Começa com uma letra maiúscula e acaba na palavra fim… o complicado é o que se escreve no meio! Exactamente o que acontece a cada um de nós, no momento em que nascemos e começamos a escrever a nossa história…
Nascemos sem pedirmos e, na maior parte das vezes, porque fomos desejados por alguém que já nos amava ainda antes de nos conhecer, e que ansiosamente nos aguardava. Até aqui, está tudo muito bem… mas o problema começa precisamente nesse dia, pois à medida que crescemos, vamos escrevendo cada uma das palavras que justificam ou não a nossa chamada à vida, acabando tudo no dia em que partimos definitivamente.
Durante a “viagem”, umas vezes curta, outras, longa, escrevemos cada capítulo passando por inúmeras dúvidas existenciais e por uma infinidade de situações que nos vão rescrevendo a história, passo a passo, momento a momento. Não somos máquinas, mas tão só seres humanos, com todas as deficiências que advêm dessa condição de mortais, pelo que, a forma como escrevemos a nossa história, ou a história da nossa vida, depende quase exclusivamente de nós. Quantas vezes, não se cometem erros, de que mais tarde nos arrependemos? E, enquanto for assim, nem é mau de todo! Pior é quando erramos, sabemos que erramos, e não nos arrependemos por maldade, ignorância ou estupidez.
Certamente que, durante a fase de aprendizagem, falhamos muitas vezes; enquanto estudantes, desperdiçamos levianamente a oportunidade de nos equiparmos melhor, desistindo a meio ou perdendo tempo com desvios, na tentativa de anteciparmos o estatuto de adultos auto-suficientes e independentes. E onde é que isso nos leva? Depois, entramos no mercado de trabalho absolutamente convencidos que uma licenciatura nos leva ao lugar mais alto do pódio, quando afinal, somos só mais um na imensa máquina laboral. Levamos algum tempo a perceber que um curso superior não nos faz melhores que ninguém, sendo tão descartáveis como qualquer outro menos preparado.
Entretanto, crescemos. Constituímos família ou algo parecido com isso, exceptuando os casos em que temos medo de arriscar e preferimos ficar sozinhos, ignorando que, nesse momento, os nossos verdadeiros problemas começam. Se optamos por ser independentes, mais cedo ou mais tarde, acabamos frustrados ao não conseguirmos descobrir um verdadeiro objectivo para a nossa vida. Vagueámos entre conhecimentos e amores esporádicos, na expectativa de aparecer alguém que nos faça investir no futuro, ou embrenhámo-nos de tal maneira num projecto de trabalho que nos esquecemos que existimos. Se optarmos por dividir os nossos anseios e projectos com alguém, corremos o risco de não estar na mesma sintonia, desperdiçando o nosso tempo com responsabilidades acrescidas, adiando objectivos que nunca serão concretizados. Ou então temos sorte, e conseguimos encontrar alguém que ouça a mesma música e pense da mesma forma, caminhando ao nosso lado em todas as páginas da nossa história. Seja qual for a nossa escolha, a vida passa… e, mal ou bem, vamos escrevendo capítulos atrás de capítulos, saltando as pedras que nos vão aparecendo, com mais ou menos dificuldade.
Um dia, descobrimos que envelhecemos… a convicção e a certeza de que íamos conseguir ser imprescindíveis, começa a parecer-nos uma miragem, quando ganhamos consciência de que fazemos parte de um imenso oceano e somos só uma gota de água. A motivação deixa de existir e passamos a sentir pena de nós próprios, por tudo aquilo que poderíamos ter feito e não fizemos, pelo que deveríamos ter arriscado e não arriscamos, ou então, felizes por termos contribuído com a nossa parte. Os cabelos brancos ou a falta deles avança inexoravelmente na nossa cabeça, e percebemos que somos só seres humanos… e, nesse momento, olhamos para trás, fazemos uma retrospectiva da nossa história achando que, se calhar, poderíamos e deveríamos ter feito algo de forma diferente e, embora sem sabermos exactamente o quê, acabamos por passar o resto dos nossos dias nessa dúvida.
Finalmente, aceitamos reconhecidos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, perdoamos os nossos próprios erros e tentamos ser felizes, durante o tempo que nos restar… acabando por escrever a nossa história que, afinal, é comum e igual a tantas outras…

A perda Publicado no Correio do Minho a 19/04/2011

Escrever sobre a perda é sempre complicado. De uma forma ou de outro, já todos perdemos alguém que amamos muito, em alguma altura da vida. Todos sabemos que é difícil, que é um momento que queremos rapidamente esquecer, ou fazer de conta que não existiu… porque nos dilacera a alma, nos arranca o que tínhamos de mais certo, abana toda a nossa estrutura mental, faz-nos duvidar da justiça divina e, acima de tudo, questiona-nos sobre a necessidade da nossa própria existência. A perda dói e destrói, à medida que vamos tomando consciência de que perdemos para sempre as pessoas que fizeram parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, de nós! Quando finalmente o tempo passa e conseguimos interiorizar a nossa dor, ficamos vazios e sem vontade para começar de novo, não encontrando qualquer sentido para a vida.
Aparentemente, enquanto adultos, somos todos independentes e capazes de ser felizes individualmente, acreditando na velha máxima que a felicidade é um estado de alma solitário e que, para sermos felizes, basta que queiramos, que só depende de nós! Eu afirmo que é mentira! Uma enorme e cruel mentira em que acreditamos, principalmente, nos dias em que tudo corre bem e temos as pessoas que amamos à nossa volta, pois imaginamos que elas estarão sempre lá. Mas… no dia em que, por este ou aquele motivo, deixam de estar, percebemos que a nossa vida também gravitava à volta delas, que afinal, eram muito mais importantes para nós do que aquilo que pensávamos. Nesse momento, questionámos se somos assim tão independentes ou não…
Lentamente sentimo-nos desprotegidos, perdidos na nossa solidão e amor-próprio, e a motivação que nos “obrigava” a fazer coisas, a pensar e a por tudo em causa, a cumprir compromissos chatos, a criar obras de arte, a trabalhar, desaparece como fumo ao vento. Tudo nos parece insípido, desnecessário, perdemos a vontade de acordar no dia seguinte, sentimos até a falta daquele homenzinho que nem sabemos o nome, mas que nos cruzávamos todos os dias de manhã, das buzinadelas e das travagens bruscas dos automóveis, do irritante barulho das crianças a gritar, das discussões sobre os resultados dos jogos do fim-de-semana, do telefone sempre a tocar, dos cheiros das ruas após a chuva, de tudo… sem percebermos como nem porquê, passamos a sentir a falta de tudo, das coisas mais básicas, das coisas que nunca olhávamos uma segunda vez! No dia em que atingimos o limite, e batemos no fundo da nossa tristeza, tudo recomeça novamente… e aceitámos a perda. Só nesse momento, que varia de intensidade e de duração de pessoa para pessoa, começamos a sentir saudades de quem perdemos. Conseguimos até sorrir e olhar para a frente, com a certeza que, quem amamos e perdemos, esteja onde estiver está connosco em todos os momentos. Agarramo-nos a recordações, às vezes físicas, outras gravadas na memória, percebendo que são esses “pedaços” que guardamos, que vão criar os alicerces para começarmos de novo, voltando a acreditar que existimos por alguma razão.
Quem amou e perdeu, viveu… rezam os pensadores e filósofos em todos os seus escritos. A verdade é que também era impossível ser de outra forma, pois quem não amou, também não sente a perda, aceitando-a como algo inevitável e sempre presente. Esses são os fatalistas, que têm tanto medo de viver e de arriscar amar alguém, que preferem ter as verdades incontestáveis à cabeceira, guiando-se como se de uma bíblia de premonições e certezas se tratasse. Até há quem diga que são os únicos verdadeiramente felizes, pois nunca ultrapassam a barreira da dor e da perda… não amando, nunca, ninguém.
Para mim, são só pobres de espírito…
Finalmente, resignamo-nos e voltamos a amar, conscientes que não iremos vencer a batalha da vida, mas que, ela também não faz sentido, se nos deixarmos afundar nas nossas lágrimas e na nossa tristeza. Cada dia que passa, passa a ser uma vitória sobre a nossa capacidade de nos levantarmos, de sorrirmos, de acreditarmos e devagar, muito devagar, reservamos um cantinho no nosso subconsciente para quem amamos e perdemos. E, se olharmos para o lado, descobrirmos alguém sozinho e lhe estendermos a mão, iremos saber e sentir que, um dia, alguém também sentirá a nossa falta…

Exposição Vieira do Minho 2008 ( Abril )