Se… de um dia para o outro, o povo dos brandos costumes se revoltasse contra tudo e contra todos, espalhando o caos e a desordem, quem teria a coragem de criticá-lo?
Lentamente, à medida que avançamos no tempo, os sinais de inconformismo vão-se acentuando, principalmente visíveis na nova vaga de emigrantes, desta vez os mais preparados, e no aumento assustador da falta de confiança e respeito nas instituições e nas pessoas que nos governam. Ou seja, enquanto uns procuram o seu “El Dorado” fora das fronteiras do nosso cantinho à beira mar plantado, levando com eles conhecimentos e capacidades de trabalho invejáveis, outros com menos espírito de aventura e mais conformados, ficam cá dentro a lamuriar-se pelas esquinas, acusando de sorte ou compadrio qualquer um à sua volta que consiga evoluir e vencer.
Ora bem, todos os que tenham vencido na vida, lá fora ou cá dentro, sabem que a sorte é composta por duas palavras – trabalho e oportunidade – divididas em proporções de nove para um. O que eles talvez não saibam é que as oportunidades não são iguais para todos, não faltando casos de pessoas com extraordinárias capacidades, desbaratadas durante anos e anos em ocupações diametralmente opostas às suas aptidões, com a consequente estagnação que daí advém… no reverso da medalha, também temos os que são manifestamente incapazes de fazer o mínimo que lhes é destinado, sem se queixarem ou sentirem estar a ser explorados pela sociedade ou por empresas desumanizadas.
Quando nasce, o sol nasce para todos, rezam os homens de boa vontade e os crentes na igualdade. Mas todos sabemos que, para alguns, descendentes directos de tios, primos ou compadres bem colocados, as oportunidades já estão criadas ainda antes de surgirem as necessidades, corrompendo decisivamente a balança e gerando desconfianças e, muitas vezes, ódios insanos em corações e cabeças que só queriam ter direito ao seu lugar. Depois começam as lamúrias, os milhares de mail’s a circular acusando estes e aqueles de serem corruptos, de receberem pelo seu suposto trabalho rendimentos a raiar o absurdo, de empregos no mercado de trabalho sem qualificações para tal, enfim, generaliza-se a revolta e as vozes em surdina, desconfianças e medo do futuro.
Mas, afinal, quem tem que ter medo? Os que se querem envolver na corrupção, aproveitando o que lhes cai no colo sem se preocuparem de onde, ou os que anseiam por chegar aos mesmos lugares, sabendo que têm que sacrificar princípios, ensinamentos e ideais? Porque não haja ilusões! Todos nós nos esquecemos facilmente da revolta no momento em que conseguimos ter o nosso lugar ao sol…
A corrupção insinua-se por todo o lado. Entra na sociedade, nas empresas, nas instituições, nos governos, e até na cabeça de cada um de nós, como um óleo viscoso que circula sem sabermos bem por onde, e que não conseguimos travar… Insinua-se dentro dos nossos corações, a maior parte das vezes porque sabemos que, se assim não for, temos o nosso destino traçado… Quantos de nós não usamos já de conhecimentos de pessoas bem colocadas, para conseguirmos uma vantagem qualquer?
A alternativa é o desânimo, o desemprego, a emigração ou a tão falada revolta popular. Que não acontece no nosso simpático país, e ainda bem, porque somos um povo dado à boa paz… e entrarmos numa revolta popular não iria resolver nenhum dos problemas da nossa sociedade, pelo contrário, iria criar novos por cima dos já existentes. Milhares de jovens a sair das universidades directamente para o desemprego, créditos feitos nos momentos de ilusão e agora impossíveis de cumprir, casas devolutas sem que ninguém as possa pagar, um aumento assustador de utilizadores da sopa dos pobres e milhares de pessoas a viverem abaixo do limiar da pobreza… destruindo, definitivamente, a nossa famosa classe média.
Resumindo, a nossa sorte é não sermos árabes, porque embora a motivação para a revolta seja a mesma, felizmente, a herança dos nossos pais e avós é tão forte, que vamos, entre um bailarico e um copito de vinho tinto, nos mantendo alegremente à espera de melhores dias…
O tempo e os tempos
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Foi aqui, no tempo
Enquanto sorvia o teu silêncio, que
Reclinando a cadeira, somei
Todos os tempos, que vividos
Através da pausa dos sentidos, fizeram
Eclodi...


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