Quando pensamos nos loucos, pensamos em hospitais psiquiátricos onde são internados aqueles que, por este ou aquele motivo, perderam a noção da realidade e mergulharam num mundo só deles. Um mundo fechado e estranho para a maioria de nós, mas tão real e normal para os que lá estão… sendo que, por muito que os médicos, apoiantes e voluntários que todos os dias se esforçam por compreendê-los, estejam só a desgastar as suas próprias capacidades. E nem sequer está em causa a sensibilidade ou a dedicação com que encaram cada novo dia, sempre um passo à frente do desânimo e da descrença, pois a maioria de nós desistiria ao fim de algum tempo, ou, nem sequer teríamos coragem para tentar…
Mas esses, são os loucos que conhecemos, ou desconhecemos, mas sabemos que existem. Onde tudo se torna mais estranho e inexplicável, é no momento em que os loucos que não estão identificados como tal, se revelam como gente normal e saudável, e cometem actos de loucura tão insanos que nem os ditos loucos conseguem explicar. Vamos contabilizar todas as vezes que nos arrependemos, um dia depois, ou mesmo uma hora depois, de atitudes que tomamos que, até nós próprios, temos dificuldade em acreditar que fomos nós que as tivemos, e não outro qualquer. Chegamos mesmo a duvidar da nossa sanidade mental e a perguntar-nos como foi possível tal coisa nos passar pela cabeça… e começamos a ter medo. De errarmos e não nos darmos conta! De prejudicarmos quem amamos, por ignorância, de não sermos capazes de funcionar razoavelmente e, pior do que tudo isso, algo falhar no nosso cérebro, transformando-nos nos tais loucos identificados como tal: daqueles que falam sozinhos enquanto caminham pela rua, ou pedem cigarros a todos com quem se cruzam, ou se riem como perdidos sem qualquer motivo. Bem como, daqueles que preferimos virar a cara e passarmos para o outro lado da rua, evitando cruzamentos que nos embaraçam…
Se pensarmos um pouco, iremos descobrir que também nós temos um pouco de loucos ou, pelo menos, temos coisas que não conseguimos perceber, nem justificar. Se assim não fosse, como poderíamos aceitar o que estamos a fazer com os nossos jovens? Passamos a sua adolescência a criar-lhes a ilusão de que vão poder ter a vida que desejam, desde que para isso se apliquem, estudem e não cometam erros irreparáveis. Pura mentira que, bem lá no fundo, nem nós acreditamos, à medida que os vamos vendo a saírem das faculdades cheios de boa vontade e ilusões rapidamente desfeitas, mal tentam encontrar trabalho num mercado cada vez mais competitivo e agressivo. Quando deixamos de sustentar as nossas famílias, desbaratando os poucos recursos que dispomos, em vícios, jogos ou satisfação pura dos nossos desejos, não estaremos a ser tão loucos como os registados como tal? Quem define onde começa e acaba a loucura dentro de cada um de nós?
Aceitemos ou não, todos nós vemos, todos os dias, a capacidade do ser humano em magoar o seu semelhante. Nos jornais ou televisões, em notícias mais ou menos fidedignas, facilmente constatamos a ligeireza com que se fazem guerras, se destroem os mais fracos e desprotegidos, se explora a credulidade dos distraídos, se deixa morrer à fome milhões de crianças espalhadas pelo mundo! Quem precisa de mais loucura? Não nos podemos esconder num buraco, olhar para o lado ou simplesmente atravessar a rua para o outro passeio… porque, queiramos ou não, todos somos coniventes, e fazemos parte desta loucura comum!
Os fingidos inocentes delegam, totalmente, a responsabilidade dessa loucura para os outros, para os governantes ou para os ditos ambiciosos senhores do poder. Mas sejamos honestos… e a nossa quota-parte? A treta dos “filósofos” de que a nossa liberdade começa, quando a dos outros acaba, encaixa-se em que momento? No momento em que sabemos que, ali mesmo ao nosso lado, está alguém que podemos ajudar e, mesmo assim, fazemos de conta que não percebemos?
A verdade é que todos nós patrocinamos a loucura, todos os dias, na nossa dimensão e na nossa realidade… e fingirmos que não vemos ou não sabemos, não vai fazer com que ela desapareça…
O tempo e os tempos
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Foi aqui, no tempo
Enquanto sorvia o teu silêncio, que
Reclinando a cadeira, somei
Todos os tempos, que vividos
Através da pausa dos sentidos, fizeram
Eclodi...


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