domingo, 12 de junho de 2011

A inconsciência ou consciência de crescer... - Publicado no Correio do Minho em 08/02/2011

Basta sentarmo-nos um pouco, num qualquer local movimentado e público e observarmos o crescimento. Das árvores, dos pássaros e dos pequenos habitantes da terra e das pessoas, todos eles em sintonia com a vida, ou seja, nascer, crescer e morrer… exactamente por esta ordem. De vez em quando, ouvimos o parceiro do banco do jardim nos dias de sol, ou na esplanada resguardada nos dias de chuva, a comentar que ouviu dizer que o filho da vizinha de um amigo da terra e, parente afastado da esposa querida e falecida, não tinha chegado a crescer, morrendo quase a partir da data em que nasceu, para aí com quinze ou dezasseis anos, com um enfarte provocado pelo consumo excessivo de drogas.
Ora bem, não é idade para ninguém morrer, ainda antes de crescer e ter oportunidade de fazer asneiras, dar com a cabeça nas paredes e ter filhos, se bem que, meter-se nas drogas já era uma parvoíce das grandes e, que, mais cedo ou mais tarde, podia transformar-se em algo bem pior que a morte individual, pois estar vivo com essa dependência era o mesmo que estar morto e enterrar a mãe, o pai e mais alguns junto com ele, tal a velocidade com que lhe consumia os recursos e a alma. De qualquer maneira, depois de se deixar enterrar nesse mundo, era uma questão de tempo até deixarem de existir sem fazer nada para o evitar…
Mas estávamos a falar de crescimento! E eu adorava ficar ali, tipo lagarto ao sol plantado, a olhar para os botões das roseiras que no dia seguinte se transformavam em belíssimas flores, para o lento arrastar dos caracóis nas folhas húmidas, um verdadeiro petisco para alguns esquisitos gostos, para as lagartixas a porem as cabeças de fora dos buracos e para as crianças, a correrem pela relva livres e aos gritos, como se a placa lá colocada a proibir o decalque, fosse um simpático convite a fazê-lo. Claro que os jovens papás, de mão dada e sentados no banco em frente, riam-se muito, achando piada à formidável capacidade das criancinhas destruírem o jardim e, simultaneamente, se divertirem tanto. Orgulho e algum inchar de vaidade, pela sua própria originalidade de serem eles mesmo a porem os filhotes no jardim, levantando-os no ar e ajudando-os a ultrapassar o arame insignificante e estúpido lá colocado.
E depois, cresciam. E já não eram os papás que os levavam, mas eles próprios pelo seu pé, indiferentes aos protestos da velha mulherzinha que estava encarregue de olhar pelo jardim, sempre a tentar correr com eles e, principalmente, com as cenas ditas vergonhosas que eles faziam alarde em mostrar, sem qualquer pudor por quem passasse ou pensasse de outra forma, nomeadamente praticarem a nobre arte do sexo livre durante a noite ou entardecer, ou acenderem cigarros e queimarem colheres com papel de prata para práticas, no mínimo, duvidosas. Enfim, verdadeiros artistas na arte da depravação e auto-destruição, com a agravante de se rirem muito e acharem muita piada a tudo aquilo, exactamente como os papás fizeram há alguns anos atrás. Também era importante o estatuto, o estilo com que se vestiam, seguindo a mesma linha do que tinham visto e aprendido, na escolha das sapatilhas Nike ou das calças Levi’s que, não era de todo relevante se gostavam ou assentavam bem, mas simplesmente se eram as mais caras da loja e melhores que as dos amigos. Se ficavam a cair pelas pernas abaixo, deixando as cuecas à vista como que um apelo à liberdade sexual nas prisões americanas ou não, não era preocupante desde que provocassem inveja suficiente nos outros. Enfim, limitávamo-nos a observá-los a crescer sem emitir opinião, ou acharmos que aquelas figuras ridículas não eram mais do que modas tendenciosas que, como o tempo, também iriam desaparecer.
O que já não se aplicava aos vícios que, ao contrário da moda, iam-se agravando até ao descontrolo total, transformando o crescimento dos jovens em desgaste rápido, embora alguns conseguissem mesmo fazer uma vida paralela ao vício, com casamentos mais ou menos falhados e concepção de filhos, definitivamente errada! Durante anos, até a eles se conseguiam enganar, criando a ilusão de uma normalidade raramente ensombrada por um problema de fácil e rápida solução, quando lhes apetecesse. Quem os ouvia, ficava preso à ideia de que tinha sido mau juiz e abusado da boa vontade dos pobres inocentes…
Depois, os pequenos arbustos transformavam-se em gigantescas e lindas árvores de fruto ou sombra, capazes de proporcionar prazer, paz e alegria a muita gente, as lagartixas continuavam a ser lagartixas, enquanto os caracóis eram comidos e as crianças, que se tinham tornado jovens e depois adultos e, os que tiveram sorte em velhos, sentávamo-nos nos bancos dos jardins, a observar com a calma só agora possível, os novos rebentos a aparecerem em busca do seu espaço e do seu lugar na terra. Alguns encontravam-no outros não… dependia das armas que tivessem para lutar pelos seus objectivos sem olhar para trás ou para o lado, das lições que fossem capazes de aprender e reter e, da forma consciente ou inconsciente como decidissem fazer a “viagem” por este mundo…

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