Escrever uma história é simples…
Alguém disse, um dia, que escrever uma história é simples. Começa com uma letra maiúscula e acaba na palavra fim… o complicado é o que se escreve no meio! Exactamente o que acontece a cada um de nós, no momento em que nascemos e começamos a escrever a nossa história…
Nascemos sem pedirmos e, na maior parte das vezes, porque fomos desejados por alguém que já nos amava ainda antes de nos conhecer, e que ansiosamente nos aguardava. Até aqui, está tudo muito bem… mas o problema começa precisamente nesse dia, pois à medida que crescemos, vamos escrevendo cada uma das palavras que justificam ou não a nossa chamada à vida, acabando tudo no dia em que partimos definitivamente.
Durante a “viagem”, umas vezes curta, outras, longa, escrevemos cada capítulo passando por inúmeras dúvidas existenciais e por uma infinidade de situações que nos vão rescrevendo a história, passo a passo, momento a momento. Não somos máquinas, mas tão só seres humanos, com todas as deficiências que advêm dessa condição de mortais, pelo que, a forma como escrevemos a nossa história, ou a história da nossa vida, depende quase exclusivamente de nós. Quantas vezes, não se cometem erros, de que mais tarde nos arrependemos? E, enquanto for assim, nem é mau de todo! Pior é quando erramos, sabemos que erramos, e não nos arrependemos por maldade, ignorância ou estupidez.
Certamente que, durante a fase de aprendizagem, falhamos muitas vezes; enquanto estudantes, desperdiçamos levianamente a oportunidade de nos equiparmos melhor, desistindo a meio ou perdendo tempo com desvios, na tentativa de anteciparmos o estatuto de adultos auto-suficientes e independentes. E onde é que isso nos leva? Depois, entramos no mercado de trabalho absolutamente convencidos que uma licenciatura nos leva ao lugar mais alto do pódio, quando afinal, somos só mais um na imensa máquina laboral. Levamos algum tempo a perceber que um curso superior não nos faz melhores que ninguém, sendo tão descartáveis como qualquer outro menos preparado.
Entretanto, crescemos. Constituímos família ou algo parecido com isso, exceptuando os casos em que temos medo de arriscar e preferimos ficar sozinhos, ignorando que, nesse momento, os nossos verdadeiros problemas começam. Se optamos por ser independentes, mais cedo ou mais tarde, acabamos frustrados ao não conseguirmos descobrir um verdadeiro objectivo para a nossa vida. Vagueámos entre conhecimentos e amores esporádicos, na expectativa de aparecer alguém que nos faça investir no futuro, ou embrenhámo-nos de tal maneira num projecto de trabalho que nos esquecemos que existimos. Se optarmos por dividir os nossos anseios e projectos com alguém, corremos o risco de não estar na mesma sintonia, desperdiçando o nosso tempo com responsabilidades acrescidas, adiando objectivos que nunca serão concretizados. Ou então temos sorte, e conseguimos encontrar alguém que ouça a mesma música e pense da mesma forma, caminhando ao nosso lado em todas as páginas da nossa história. Seja qual for a nossa escolha, a vida passa… e, mal ou bem, vamos escrevendo capítulos atrás de capítulos, saltando as pedras que nos vão aparecendo, com mais ou menos dificuldade.
Um dia, descobrimos que envelhecemos… a convicção e a certeza de que íamos conseguir ser imprescindíveis, começa a parecer-nos uma miragem, quando ganhamos consciência de que fazemos parte de um imenso oceano e somos só uma gota de água. A motivação deixa de existir e passamos a sentir pena de nós próprios, por tudo aquilo que poderíamos ter feito e não fizemos, pelo que deveríamos ter arriscado e não arriscamos, ou então, felizes por termos contribuído com a nossa parte. Os cabelos brancos ou a falta deles avança inexoravelmente na nossa cabeça, e percebemos que somos só seres humanos… e, nesse momento, olhamos para trás, fazemos uma retrospectiva da nossa história achando que, se calhar, poderíamos e deveríamos ter feito algo de forma diferente e, embora sem sabermos exactamente o quê, acabamos por passar o resto dos nossos dias nessa dúvida.
Finalmente, aceitamos reconhecidos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, perdoamos os nossos próprios erros e tentamos ser felizes, durante o tempo que nos restar… acabando por escrever a nossa história que, afinal, é comum e igual a tantas outras…
O tempo e os tempos
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Foi aqui, no tempo
Enquanto sorvia o teu silêncio, que
Reclinando a cadeira, somei
Todos os tempos, que vividos
Através da pausa dos sentidos, fizeram
Eclodi...


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