Por experiência, ou pelo que vemos nas revistas cor-de-rosa, amar é algo maravilhoso, intenso e eterno. Naturalmente que, quando usamos a cabeça para pensar, percebemos que o amor é muito mais do que isso, ou, um sem numero de outras vezes, não é nada disso! Facilmente nós, os simples mortais, temos dificuldade em aceitar que o amor não se negoceia, não se pensa, não se julga nem se cobra… simplesmente está lá, respira-se, sente-se, sonha-se, imagina-se, em suma, está lá!
Claro que à sempre quem confunda com paixão! A paixão é, segura e indiscutivelmente, a melhor sensação que se pode ter. Em segundos e sem razão, transporta-nos para um outro mundo, onde nos esquecemos com frequência até do nosso nome, quanto mais das inesquecíveis noites de fogo, de raiva, de loucura, onde nos sentimos capazes de tudo e, não poucas vezes, acordámos com uma lágrima no canto do olho. A nostalgia da recordação preenche-nos os sentidos durante alguns dias, ocupamos os nossos pensamentos com planos de repetição, perdemos horas e horas em longas conversas que, no final, não têm qualquer significado a não ser programar mais uns minutos de libido enlouquecido. Mas não podemos nunca deixar de alimentar a chama da paixão, pois ela funciona como as antigas locomotivas… sem o carvão atirado para a fornalha, pára. Assim, convém aos amantes manterem a rédea curta e, jamais permitirem que a chama corra o risco de se apagar, ou que seja alimentada por outro soprador, correndo o risco de perceberem que afinal aquele tão intocável amor era, afinal, só uma tórrida paixão.
Porque amar é muito mais do que isso. É saber ouvir no silêncio, é ver na escuridão, é perceber a cumplicidade com um olhar, é dividir todos os pensamentos incluindo os que magoam profundamente a alma, é existir para servir o outro em todas as horas difíceis ou boas, é estar lá surgindo do nada com um sorriso pronto e nunca, nunca pedir nada em troca. Nem sequer ser amado… porque a paixão, vive-se a dois, sempre! O amor, não… o amor é único, sem paralelos ou sentidos. Existe dentro de cada um de nós, cada um sente-o à sua maneira, e cada um vive-o à sua maneira! Enfim, é algo amadurecido com o tempo, como um vintage de boa cepa ou um sonho que nunca acaba…
Quando somos jovens e, às vezes menos jovens, caímos na ilusão de acharmos que um dia, quando amarmos alguém de verdade, vamos ser sérios, fiéis e eternamente dedicados ao outro. Acreditamos sinceramente nisso, até mesmo quando o céu nos cai em cima e percebemos que, afinal, confundimos tudo, simplesmente porque o amor não é algo que caia do céu ou nasça da terra. Tem que ser construído! Tem que se juntar pedaços de confiança, de amizade, de companheirismo, de humor, de dor, de sexo, de desilusão, de tristeza, de sacrifício, de imaginação e de mais um milhão de “tijolos” diferentes e, lentamente, muito lentamente, colocá-los uns por cima dos outros e construir algo parecido com amor. E, mesmo assim, a maioria de nós não vai conseguir chegar lá…
Em contrapartida, chegámos todos à paixão! Em certos momentos da vida, ela surge repentinamente e ataca todos os movimentos, todos os sentidos e todas as reacções a partir daí. Escrevem-se poemas, livros de prosa romântica, gastam-se cabeças de dedos nos teclados dos telemóveis e pc’s, noites em claro a pensar num ou noutro momento, vive-se as festas e os jantares nas discotecas sempre com um olho colado à porta de saída, suspira-se muito e mente-se muito! Mas claro que vale a pena viver uma paixão, pois sem ela a vida não tem sabor, não tem sal… desde que haja consciência de que o facto de duas pessoas estarem apaixonadas uma pela outra, não significa que se amem. É obrigatório viver a paixão, sentir a paixão e, se houver oportunidade de ultrapassá-la sem mágoas e sem feridas, a porta para o amor fica aberta de par em par. Aí, deixa de ser necessário fingir ou forjar loucuras, calores e lágrimas, bastando ser verdadeiro e igual a si próprio, sem medo de falhar, sem medo de perder, sem medo de ser humano e, como tal, cometer erros. Porque muito mal vai o amor, quando o perdão é só uma palavra dos livros e dos filósofos… a essência do amor, é a capacidade de perdoar os erros do outro sem julgamentos precipitados nem condenações antecipadas.
Concluindo, o mundo e os homens de ambos os sexos vivem numa utopia, acreditando que basta quererem para conseguirem amar. Não é bem assim… como disse antes, o amor dá uma trabalheira monumental, peça a peça montada num gigantesco puzzle que é a mente humana e, acima de tudo, só alguns eleitos têm a capacidade de perdoar! Esses sim sentem, respiram e vivem o amor… e sabem que não existe nada tão transcendental como amar alguém…
O tempo e os tempos
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Foi aqui, no tempo
Enquanto sorvia o teu silêncio, que
Reclinando a cadeira, somei
Todos os tempos, que vividos
Através da pausa dos sentidos, fizeram
Eclodi...


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