Escrever sobre a perda é sempre complicado. De uma forma ou de outro, já todos perdemos alguém que amamos muito, em alguma altura da vida. Todos sabemos que é difícil, que é um momento que queremos rapidamente esquecer, ou fazer de conta que não existiu… porque nos dilacera a alma, nos arranca o que tínhamos de mais certo, abana toda a nossa estrutura mental, faz-nos duvidar da justiça divina e, acima de tudo, questiona-nos sobre a necessidade da nossa própria existência. A perda dói e destrói, à medida que vamos tomando consciência de que perdemos para sempre as pessoas que fizeram parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, de nós! Quando finalmente o tempo passa e conseguimos interiorizar a nossa dor, ficamos vazios e sem vontade para começar de novo, não encontrando qualquer sentido para a vida.
Aparentemente, enquanto adultos, somos todos independentes e capazes de ser felizes individualmente, acreditando na velha máxima que a felicidade é um estado de alma solitário e que, para sermos felizes, basta que queiramos, que só depende de nós! Eu afirmo que é mentira! Uma enorme e cruel mentira em que acreditamos, principalmente, nos dias em que tudo corre bem e temos as pessoas que amamos à nossa volta, pois imaginamos que elas estarão sempre lá. Mas… no dia em que, por este ou aquele motivo, deixam de estar, percebemos que a nossa vida também gravitava à volta delas, que afinal, eram muito mais importantes para nós do que aquilo que pensávamos. Nesse momento, questionámos se somos assim tão independentes ou não…
Lentamente sentimo-nos desprotegidos, perdidos na nossa solidão e amor-próprio, e a motivação que nos “obrigava” a fazer coisas, a pensar e a por tudo em causa, a cumprir compromissos chatos, a criar obras de arte, a trabalhar, desaparece como fumo ao vento. Tudo nos parece insípido, desnecessário, perdemos a vontade de acordar no dia seguinte, sentimos até a falta daquele homenzinho que nem sabemos o nome, mas que nos cruzávamos todos os dias de manhã, das buzinadelas e das travagens bruscas dos automóveis, do irritante barulho das crianças a gritar, das discussões sobre os resultados dos jogos do fim-de-semana, do telefone sempre a tocar, dos cheiros das ruas após a chuva, de tudo… sem percebermos como nem porquê, passamos a sentir a falta de tudo, das coisas mais básicas, das coisas que nunca olhávamos uma segunda vez! No dia em que atingimos o limite, e batemos no fundo da nossa tristeza, tudo recomeça novamente… e aceitámos a perda. Só nesse momento, que varia de intensidade e de duração de pessoa para pessoa, começamos a sentir saudades de quem perdemos. Conseguimos até sorrir e olhar para a frente, com a certeza que, quem amamos e perdemos, esteja onde estiver está connosco em todos os momentos. Agarramo-nos a recordações, às vezes físicas, outras gravadas na memória, percebendo que são esses “pedaços” que guardamos, que vão criar os alicerces para começarmos de novo, voltando a acreditar que existimos por alguma razão.
Quem amou e perdeu, viveu… rezam os pensadores e filósofos em todos os seus escritos. A verdade é que também era impossível ser de outra forma, pois quem não amou, também não sente a perda, aceitando-a como algo inevitável e sempre presente. Esses são os fatalistas, que têm tanto medo de viver e de arriscar amar alguém, que preferem ter as verdades incontestáveis à cabeceira, guiando-se como se de uma bíblia de premonições e certezas se tratasse. Até há quem diga que são os únicos verdadeiramente felizes, pois nunca ultrapassam a barreira da dor e da perda… não amando, nunca, ninguém.
Para mim, são só pobres de espírito…
Finalmente, resignamo-nos e voltamos a amar, conscientes que não iremos vencer a batalha da vida, mas que, ela também não faz sentido, se nos deixarmos afundar nas nossas lágrimas e na nossa tristeza. Cada dia que passa, passa a ser uma vitória sobre a nossa capacidade de nos levantarmos, de sorrirmos, de acreditarmos e devagar, muito devagar, reservamos um cantinho no nosso subconsciente para quem amamos e perdemos. E, se olharmos para o lado, descobrirmos alguém sozinho e lhe estendermos a mão, iremos saber e sentir que, um dia, alguém também sentirá a nossa falta…
O tempo e os tempos
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Foi aqui, no tempo
Enquanto sorvia o teu silêncio, que
Reclinando a cadeira, somei
Todos os tempos, que vividos
Através da pausa dos sentidos, fizeram
Eclodi...


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