terça-feira, 20 de agosto de 2013

"O Elefante azul"


“Impressionante! O elefante saltava de onda em onda, como se soubesse exatamente onde estavam as pedras. Sim! Porque era impossível não haver um manto de pedras por baixo daquele mar imenso… ou era possível? Não sei. O que sei é que naquela imensidão escura e feia, a única coisa linda era mesmo o brilho azulado do bicho, a saltar de um lado para o outro. Senti os olhos húmidos e esfreguei os olhos com força… e pronto! O elefante azul desapareceu! E desapareceram as ondas! E desapareceu o mar… ficando só o esplendor do sol a queimar-me a pele. Por momentos, senti que precisava de sair dali… eu já tinha ouvido um monte de histórias de gente queimada pelo sol que, mais cedo ou mais tarde, sofria doenças dolorosas, ou mesmo fatais, e não queria acabar como elas. Infelizmente, a divina providência, ou lá o que era, veio em meu auxílio e, sem perceber bem como, começou a chover torrencialmente, o que me obrigou a levantar como uma mola…” 
Gesto que me fez tropeçar e embater, violentamente, no guarda-vestidos ao lado da cama. Merda! A merda dos sapatos, às escuras e uma pancada com a cabeça no móvel. Pior ainda. A minha mulher acorda, sobressaltada e acende a luz do candeeiro. O blá blá do costume, a cara irada de raiva, meia dúzia de insultos, e eu digo-lhe que está tudo bem, que durma pois tive só um pesadelo chato. Viro-lhe costas e enfio-me no quarto de banho, deixando-a a resmungar sozinha. O silêncio acaba por vencer, enquanto me deixo estar sentado na sanita, sem vontade de ter mais uma discussão. O que é que ela sabe? Nada! Nada de nada! Levanto-me quando a ouço ressonar e abro a torneira do lavatório, deixando correr a água lentamente. Recuso-me a olhar de imediato para o espelho, mesmo sabendo que vou acabar por fazê-lo. Esfrego a cara e os braços vigorosamente e, durante uns minutos, a sensação de frescura ajuda-me a perder a sensação de pele queimada. Finalmente, olho-me ao espelho… sou eu, sim. Claro que sou eu! Belo e único. Um ser perfeito, sem mácula ou defeito que se possa apontar. Sorrio e o espelho corresponde, sorrindo-me também. Ótimo! 
Estou melhor, mais calmo e animado. Volto a deitar-me sem qualquer ruído, as molas do colchão não contam, sentindo a minha mulher virar-se para o outro lado. Instintivamente, ela afasta-se evitando encostar-se a mim. Problema dela. Fiquei o mais quieto possível, a respirar lentamente, a tentar adormecer sem pesadelos de elefantes, de mares, de sóis de preferência, o que não é fácil... e o despertador toca, e toca, sem controle nenhum! Não acredito que já são seis da manhã! Estendo a mão e desligo-o, de uma forma automática e sempre surpreendido por aquele barulho infernal não acordar a minha mulher! Talvez esteja tão habituada a ouvir aquela porcaria que já nem liga nenhuma. Ainda antes de me mexer da cama, já sinto as pernas cansadas, moídas. Tem que ser. Levanto-me, entro na casa de banho e fecho a porta. E apanho um susto tremendo quando me olho ao espelho. Aqueles olhos tão mortiços, tão encovados são os meus? O meu verde límpido, que em tempos encantou meia prole feminina deste mundo, desaparece com meia dúzia de noites mal dormidas? Bem, devo ser eu a exagerar… de certeza que, se quisesse, ainda conseguia conquistar qualquer uma! Lavo a cara, desfaço a barba e visto-me meio às escuras.
Pico o ponto, exatamente às seis e meia, ponho o meu melhor sorriso, o amarelo não conta, e começo mais um dia de trabalho. Como habitualmente, os meus colegas também estão meio a dormir, pelo que ninguém se apercebe do meu cansaço. Lanço para o ar umas graçolas, comento o jogo do Sporting da noite anterior e, devagar, devagarinho, vou organizando o dia de trabalho de toda gente. Afinal, estão sob a minha responsabilidade. Por algum motivo que não tenho bem a certeza, lidero uma equipa de homens e mulheres, alguns mais velhos e mais burros que eu, mas lidero. Meia hora depois, com o ritmo de trabalho já instalado, estou cheio de estar ali! As pernas tremem-me como gelatina. Os olhos fecham-se-me sem contar e a merda da comichão espalha-se pelo corpo todo. Olho em volta e, quando percebo que não estão a olhar para mim, esgueiro-me sorrateiramente e enfio-me no quarto de banho. Fecho a porta à chave. Ali no trabalho, não dá para facilitar. Eles, os monstros todos, estão ali à volta, só mesmo à espera que eu dê um passo em falso para me comerem vivo! Mas não! Não vão conseguir! Eu sou muito mais esperto do que eles todos juntos… Volto a passar água na cara, componho a camisa e a gravata no meu melhor estilo, afivelo o tal sorriso e saio. Ninguém deu pela minha falta, naqueles quinze minutos. Ótimo! E para as seis da tarde, já não falta assim tanto! Só onze horas, mais coisa, menos coisa.
O dia passa num turbilhão de gente a correr para não perder os últimos produtos; como se a fonte estivesse a secar ou o stock no fim. Obviamente que não! Era a pressa, o frenesim da competição, a caça ao mais apetecível pedaço do que quer que fosse, mesmo de coisas que não precisavam para nada mas que, se não as comprassem, o cliente ao lado iria comprar. E ninguém quer ficar para o fim, pois não? Enquanto percorro os intermináveis corredores da loja, vou olhando disfarçadamente para o relógio, à espera que tudo aquilo acabe, que o dia chegue ao fim! O olho grande, na forma de minúsculas câmaras de vigilância espalhadas por todos os cantos, segue os meus passos, um a um. Ninguém me tinha dito, mas eu tinha a certeza disso! Os maiorais afirmavam que a vigilância era para os clientes, principalmente os que entravam com sacos grandes e mãos ligeiras e trocavam o lugar dos produtos, entre as prateleiras e os sacos. Mas era mentira! Uma refinada mentira! Eu sabia bem o que os gajos lá de cima, sentados nas suas cómodas cadeiras e de olhar fixo nos visores estavam realmente à procura... Apanhar-me a mim ou outro colega, encostado a dormitar a um canto ou a fazer de conta que trabalha e pôr-nos na rua!
O almoço! Uma pausa de uma hora que, mal saía e respirava um pouco de ar puro voltava a entrar. Se bem que não me fazia grande diferença, pois comer não me dava gozo nenhum, nem que fosse lagosta ou leitão. O que nunca era, já que o dinheiro nunca chegava para nada. Passava pela mesa, olhava para a comida e sentia-me enjoado, com vontade de sair de casa e voltar para o trabalho. E depois, não sei porquê, era sempre eu que apanhava bicharada nas alfaces, nas maçãs, na sopa. E reclamava, como é natural! O que não adiantava nada; que estava a ficar maluco, que só arranjava desculpas para não comer, que estava magro como um cão, enfim, que eu é que era complicado. Alguns dos meus amigos, se é que podia chamar isso aos gajos que paravam comigo ao fim da tarde no café para uma merecidas cervejas, diziam que eu, ultimamente, estava a ficar mais magro. Que teria perdido uns dez quilos nos últimos quatro ou cinco meses. Ridículo! Eu sabia bem que estava ótimo, com o peso ideal e equiparado a qualquer modelo masculino da moda! E aqueles gajos não tinham espelhos? Cambada de inúteis, nenhum se aproveitava! Se tivessem que trabalhar no duro como eu para sustentar uma casa, uma mulher, dois filhos, uma infinidade de prestações disto e daquilo, iam saber o que era a vida! E descobrir os motivos de estar mais magro! Tinha que estar, não?
Regressei para uma tarde igual à manhã. Talvez pior um pouco, pois à medida que as horas iam passando, a minha ansiedade aumentava na mesma proporção. Sentia as comichões a incomodar mais um bocado e ignorava a tremura das mãos facilmente. Pegava neste produto, ou noutro qualquer, mudava-o de um sítio para o outro, mexia-me de um lado para o outro, entrava e saía do armazém sempre com uma atitude frenética, obrigando os gajos do olho grande a estarem constantemente em movimento. Deviam ver-se gregos para me acompanhar mesmo com a muleta das câmaras! Eu sou muito esperto... está ainda para nascer o gajo que me apanhe a dar um passo em falso! Eu controlo tudo! Eu vigio a minha retaguarda minuto a minuto... a mim não me hão de apanhar, nunca!
Finalmente acabou por hoje. Na hora certa, diga-se. Entrei no carro e voltei para casa. Ou melhor, para o café por baixo da minha casa. Agora, era o meu momento de relax. Sentar-me sossegado com uma cerveja bem gelada na mesa e ler os jornais do dia. Principalmente, os diários desportivos, já que as noticias do mundo real não me interessavam muito. Queria lá saber de atentados no Iraque, das guerrilhas no Sudão, da queda das bolsas europeias, das ameaças dos coreanos ou das inaugurações das Agropecuárias. Tudo treta! Tudo gente cheia de massa nos bolsos, a chatear os tesos como eu. Na página vinte e seis, acho, achei piada ao valor das transferências dos jogadores de futebol. Aquilo só dava mesmo para rir. Absurdo! Bem, era um absurdo, mas o que podia eu mudar? Nada! Uma hora depois e a meio da terceira cerveja, o meu puto veio chamar-me ao café. Pensei num palavrão feio, mas engoli-o. “A mãe está a dizer para subires, vamos jantar. E então, pai? O dia correu bem? Tiraste as cópias que te pedi? Hoje levas-me ao treino?” Fiz um esforço para me controlar e não correr com ele para casa. “Senta-te aí, pá! Queres uma coca-cola?” “Fixe, pai!” Ainda assim, olhei para as moedas que tinha no bolso a ver se dava para a despesa, sem que o meu rapaz se apercebesse. Três cervejas, uma coca-cola, três euros e setenta. Bem, não chegava. O que valia era que o moço do café, um gajo porreiro, já me conhecia e confiava em mim. E amanhã também era dia!
Subimos juntos. Eu já estava um pouco toldado, mas bem-disposto. Mais um esforço e mais um dia que estava ganho. Ou adiado, já que agora era difícil disfarçar o tremor das mãos e a incomodativa comichão que me assolava o corpo. Despachei rápido o jantar e desci para ver o futebol no café, com o meu rapaz atrelado a mim! Não que me interessasse muito, mas era uma boa desculpa. Deixei o puto no treino e entrei no meu mundo perfeito. Sozinho, divaguei por lugares mágicos e quentes, por lugares nunca antes viajados, por desejos e sonhos lindos e possíveis.
“As cobras entravam e saíam pelos buracos do meu corpo. Devagar, percorriam cada veia, cada artéria, insinuando-se dentro de mim como se o meu corpo lhes pertencesse. Prometiam a paz, a serenidade, com as flores a crescerem livremente nos jardins e as andorinhas a voarem no céu. Adorava aquela sensação. Olhava para elas, lentas, suaves, umas esverdeadas, outras amareladas, outras ainda com uns risquinhos vermelhos a marcarem os anéis perfeitos da pele brilhante e escorregadia. Eu via-as debaixo da minha pele… olhei para os meus braços e vi, distintamente, as sacanas a subirem desde os pulsos até aos cotovelos. Ah, mas nas pernas é que era um verdadeiro espetáculo! Várias ao mesmo tempo, eriçavam-me os pelos, davam-me tesão, subiam-me pelas pernas acima, davam-me sossego, faziam de mim aquilo que nenhum ser humano conseguia. Euforia! Poder! Quem diria que bichinhos tão repelentes para a maioria das pessoas, a mim me davam a impunidade do prazer? Transmitiam-me confiança, transcendiam as minhas capacidades, elevavam-me às nuvens! Ri-me sozinho, à medida que as tremuras das mãos iam desaparecendo, que o cansaço se perdia no esquecimento, que jurava para mim mesmo que era a última vez…”
Saí da garagem com cuidado, não fosse algum parvalhão dos meus vizinhos me ver e achar estranho um homem sair sozinho da garagem, sem carro, às dez da noite. Enfim, até de mim próprio eu tinha que me esconder! Subi, airoso e animado, até gracejei com a mulher e com a miúda que tinha acabado de chegar da faculdade e fui-me deitar. Antes, ainda bebi um gole de um bom bagaço que tinha para lá escondido na garrafeira e ouvi a patroa a queixar-se da falta de detergente para a máquina de lavar louça. Como? O que tinha eu com isso? Era tudo para mim? Não chegava ter que trabalhar o dia todo e ter que ganhar para aquilo tudo? Ainda tinha que me preocupar com a merda do detergente? Fiz ouvidos moucos e virei costas, levando comigo um chorrilho de tretas, mais ou menos intensas. Não liguei nenhuma! Hoje não! Tinha que me deitar, antes que as tremuras e as comichões voltassem e se tornasse incontrolável a vontade de “viajar” outra vez…
“A cabeça batia contra a parede, ao mesmo tempo que a parede batia contra a cabeça. Achei estranho não haver sangue até que, finalmente, percebi porquê. Não era eu! Alguém, do outro lado da minha memória, vingava-se no betão e ria-se perdidamente. Era, obviamente, muito mais forte, muito mais duro, indestrutível. Se assim não fosse, aquela cabeça estaria pior que um melão maduro esborrachado no chão! Eu fiquei sentado, muito quieto entre as sombras do muro, na expectativa de ver como aquilo acabava. Das duas, uma! Ou desistia o homem, ou desistia a parede… o homem acabou por adormecer, deixando-se escorregar pela parede abaixo, mergulhando num sono leve e agitado, estremecendo sem cessar como se os demónios estivessem a comer-lhe as entranhas. Se calhar, estavam mesmo… que se lixe! Não era nada comigo! Limitei-me a sentir pena do homem, da loucura que exprimia, tive pena da parede e fui-me embora!”
Acordei banhado em suor. Ainda era noite cerrada. Pelo canto do olho, vi que o relógio do despertador marcava quatro e vinte da manhã, sendo que os únicos ruídos eram os carros a passar velozmente na avenida. As pernas doíam-me. As mãos suavam e sentia os olhos pesados. Precisava, desesperadamente, de descansar, esquecer os meus problemas e encarar o dia seguinte com coragem. Descobrir formas de pagar todas as contas, sem ter que pedir dinheiro a este e àquele. Ok! Tinha uma família, mas longe da minha realidade. O que sabiam eles? Levantei-me e fui até à varanda, onde me sentei na velha cadeira de plástico e fiquei ali, no silêncio da noite, às escuras, tentando ver alguma coisa para além de mim próprio… mas era difícil. Os meus dias começavam e acabavam sempre da mesma forma, sem qualquer objetivo que não fosse acordar no dia seguinte e tentar que ninguém me conhecesse por dentro… e amanhã? Ou melhor, daqui a pouco? Quando o dia nascesse e tivesse que ir outra vez trabalhar? E no fim do dia, fazia o quê? Voltava a ficar a dever ao gajo do café? Comecei a magicar… a ter ideias, a pensar em soluções… e levantei-me, sorrateiro, aproveitando a fraca luz que entrava no quarto. Silenciosamente, descobri a carteira da minha mulher pousada na cadeira. O meu coração acelerou, disparou como uma bala perdida, na expetativa de não ser apanhado em flagrante. Ali não tinha hipótese. Estava escuro e, ao mais pequeno ruído ela iria acordar, o que levaria a uma tremenda discussão. Peguei na carteira, abri a porta do quarto e, o mais silenciosamente possível fui até à cozinha, onde liguei a luz e antecipei o prazer de ter dinheiro no bolso. Abri a bolsa, procurei o porta-moedas e, sorrindo abri-o de par em par. Vazio! Vazio? Nada de nada! Nem uma única moeda! Tirei tudo para fora e fui espalhando na mesa da cozinha, lenços de papel, o telemóvel dela, a carteira com os cartões de multibanco, do supermercado, das lojas de marca, dos descontos nas bombas de gasolina, do ginásio que já não frequentava há dois anos, o cartão de cidadão. Todos, menos dinheiro! Nem moedas, nem papel. Nada! A bolsa dos óculos! O esconderijo perfeito! Abri-o, convencido que tinha descoberto a pólvora. Nada, novamente… uma estranha sensação de ter sido enganado, começou a apossar-me dos meus pensamentos, associado a um receio irracional de ser apanhado ali na cozinha, com aquela bagunça espalhada na mesa. À pressa, meti tudo novamente dentro da carteira e, pé ante pé, voltei a pousá-la na cadeira do quarto. Caramba! Ainda ao jantar me tinha dito que só tinha trinta euros até ao fim do mês… e onde estavam? Nem sequer tinha saído de casa, não os podia ter gasto. Escondeu-os! Claro! Só os podia ter escondido… que merda é esta? Não era eu o único que ganhava dinheiro ali? Esconder o meu próprio dinheiro? Apeteceu-me esganá-la enquanto dormia… Respirei fundo, várias vezes, tentando controlar a minha raiva, acabando por me deitar e tentar esquecer aquela passagem noturna. Deus tira, mas também dá…
À hora habitual, o despertador. Ao fim de alguns anos naquilo, já se tinha tornado num amigo, embora fosse daqueles amigos difíceis de aturar. A rotina de sempre, um banho rápido e indesejado, a roupa às escuras e um novo dia de trabalho pela frente. Felizmente era sábado, o que significava que era o último dia da semana. Antecipei um fim de tarde e noite engraçados, mas para os ter, teria que inventar dinheiro. Bem, saí de casa depois de dar uma espreitadela nos quartos dos miúdos. Dormiam como justos… A minha cabeça voava entre a forma de conseguir arranjar dinheiro e o almoço de domingo, mais uma valente seca inventada por um tio mais velho, irmão da minha mãe e arvorado em patrono familiar. Enfim, mais um dia perdido em que teria que disfarçar um prazer que não tinha, uma máscara de alegria e felicidade que poucos imaginariam ser uma mentira. Eu queria lá saber deles! Nunca me ligaram nada! Nunca se interessaram se eu ou a minha gente estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, nada! Sempre me senti a ovelha ranhosa da família e, se me perguntassem porquê, não fazia a mais pequena ideia. Ou talvez fizesse…pois, também não queria saber deles, para nada! Durante os cinco minutos que demorei até ao trabalho, pensei que talvez os miúdos fossem a solução… aqueles colares de prata, aqueles anéis que o namoradito da rapariga lhe ia dando, talvez dessem alguma coisa. E, eram já alguns, pelo que dariam para uns momentos bem passados! Um pouco mais animado, passei o dia no trabalho a magicar na forma de lhos tirar, sem que ela desse conta ou me relacionasse com isso. Não era difícil! E o porquinho do miúdo também teria algumas moedas, de certeza! Ele andava a juntar as prenditas que lhe iam dando para comprar um jogo novo para a consola. Até a mim já me tinha pedido e eu, feito parvo, tinha-lhe dado três euros que me faziam falta agora.
O fim da tarde chegou, tal como determinado pela natureza. Com ele, toda a minha ansiedade. Entrei em casa sorridente, com a ideia fixa de despistar os putos e ter oportunidade de procurar no quarto deles. Tive sorte! Só estava em casa a minha mulher que, após um custoso “correu bem?”, voltou para a cozinha e para a preparação do jantar. Eu agradeci silenciosamente a sua estupidez e, um minuto depois, estava a tirar a tampa de plástico do fundo do porquinho. Maravilha! Dezasseis euros em moedas. Bom! Muito bom! Enfiei-as rapidamente no bolso das calças, voltei a meter a tampinha e saí do quarto dele, com um sorriso de orelha a orelha. A mesma sorte no quarto da miúda, e eu tinha o dia ganho… oh, Deus dos deuses, ela tinha uma nota de vinte euros muito bem dobradinha, escondida dentro de uma carteira no guarda-vestidos. E as pratas! Metidas num cofrezinho de vime, a imitar um guarda-joias, dois colares e dois anéis. Fraquinhos, mas que no conjunto, deviam valer outros vinte euros. Parei uns segundos, tentando ver se vinha algum ruído da cozinha, mas nada… ótimo! A minha ideia tinha sido genial. De um momento para o outro, de nada tinha passado a ter, pelo menos, cinquenta euros no bolso. Podia haver algo melhor? Duvido…
“A guerra ou a paz… que diferença fazia? Afinal, fosse de que forma fosse, estávamos todos tramados, todos iríamos morrer um dia… Eu fiquei ali, no paredão, sentado, a ouvir o grasnar esganiçado das gaivotas, a sentir o vento bater-me com força na cara e a rir-me das baleias a tentarem entrar pela praia dentro. Aqueles corpos gigantescos, a espumarem frustração e raiva, feitos minúsculos caranguejos a meterem o focinho na areia… Azul, amarelo, verde ou vermelho, as cores passavam-me em frente dos olhos e o bem-estar era indiscritível. Eu sou o único, o maior! Sexo? Isso é o quê, comparado com a luz eterna que sinto dentro de mim? Quem, no seu perfeito juízo, pode avaliar a força de um homem? Ah, chegou o elefante! Grande, imponente, azul, postou-se sentado na borda do mar a observar a ginástica das baleias e o seu esforço para entrarem na praia. Se aquilo não era um riso gutural e cavernoso, era lá perto! O sacana riu-se mesmo! E sem pruridos ou respeito algum, agitou a tromba para a direita e para a esquerda e correu com a baleias para o mar, obrigando-as a fugir a sete pés! A mim convenceu-me… adorei o bicho, o seu poder, o seu gozo…”
Quem sou eu? Domingo, deitado, sem o despertador, a olhar o teto pintado de restos de sangue de mosquitos e a rever a minha vida, a pensar no fundo do poço das minhas ilusões. A ouvir as queixas do miúdo à mãe, do porquinho vazio, do frenesim da miúda á procura das suas simbólicas joias, da solidão do meu silêncio, da vergonha das minhas tremuras e do meu medo de ser descoberto. Era uma questão de tempo, de horas, de minutos até alguém se lembrar de mim… neguei tudo, claro! Como era possível eles pensarem que eu faria uma coisa dessas? Tudo aquilo era meu ou não, caramba? Porque faria eu uma coisa dessas? Insurgi-me e fiquei revoltado, levantei-me, vesti-me e saí porta fora. Precisava de um Martini! Ou uma cerveja! Ou a merda de um amigo qualquer que me pagasse um café! Um turbilhão de pensamentos enchiam a minha cabeça e quando entrei no café, sem um tostão no bolso, senti o olhar acusador do gajo porreiro. Nunca me via de manhã, era visível a sua surpresa, a sua cobrança implícita… Pedi-lhe mais um dia, mais uma oportunidade. E ele, de alguma forma, não foi capaz de me dizer que não, talvez a pensar na minha mulher, nos meus filhos…
Depois de um café simples, uma vista rápida pelos jornais, deambulei durante muito tempo vários quarteirões perto de casa, afastando de mim os pesadelos das noites mal dormidas, das acusações sem palavras, das histórias mal contadas, das mentiras diárias e constantes. Pensei na minha pobre mãe, nos seus antigos e amigáveis sonhos e planos para mim, nos meus ingénuos e crédulos irmãos, no meu falecido e amado pai, nos meus adormecidos projetos para o futuro. Pensei em toda uma vida que eu queria ter vivido, mas que por crueldade do destino, nunca consegui. Do destino? Não, não foi o destino que me empurrou para o abismo…fui eu, sozinho…
Parei num banco de madeira, num jardim qualquer, e sentei-me. Nada fazia sentido, nada tinha significado. Senti-me um trapo velho… amargurado demais para levantar a cabeça, vazio demais para olhar os outros de frente, angustiado demais para acreditar que ainda era possível, cego demais para conseguir ver que alguém ainda me amava, triste demais para acreditar em algum futuro, desanimado demais para começar de novo, descrente demais nas minhas próprias forças e, acima de tudo, envergonhado demais para aceitar a minha realidade… e chorei. Chorei sem tempo, sem limites…
Lentamente, fui regressando à vida e a casa. De alguma forma era o único sítio para onde podia ir. Não tinha mais nada, nem ninguém. Com os pés no chão e, por muito cego que estivesse, não existiam elefantes tão poderosos, nem cobras tão bonitas, nem êxtases tão intensos, nem baleias perdedoras… só existia eu, os meus medos, os meus demónios, os meus pesadelos. Mesmo evitando a pergunta, mesmo tendo medo de saber a resposta, mesmo sabendo que não havia resposta, era inevitável… quem sou eu, afinal?
Não sou ninguém… Benvindo ao meu mundo… ao mundo de um viciado em cocaína…


domingo, 12 de junho de 2011

A inconsciência ou consciência de crescer... - Publicado no Correio do Minho em 08/02/2011

Basta sentarmo-nos um pouco, num qualquer local movimentado e público e observarmos o crescimento. Das árvores, dos pássaros e dos pequenos habitantes da terra e das pessoas, todos eles em sintonia com a vida, ou seja, nascer, crescer e morrer… exactamente por esta ordem. De vez em quando, ouvimos o parceiro do banco do jardim nos dias de sol, ou na esplanada resguardada nos dias de chuva, a comentar que ouviu dizer que o filho da vizinha de um amigo da terra e, parente afastado da esposa querida e falecida, não tinha chegado a crescer, morrendo quase a partir da data em que nasceu, para aí com quinze ou dezasseis anos, com um enfarte provocado pelo consumo excessivo de drogas.
Ora bem, não é idade para ninguém morrer, ainda antes de crescer e ter oportunidade de fazer asneiras, dar com a cabeça nas paredes e ter filhos, se bem que, meter-se nas drogas já era uma parvoíce das grandes e, que, mais cedo ou mais tarde, podia transformar-se em algo bem pior que a morte individual, pois estar vivo com essa dependência era o mesmo que estar morto e enterrar a mãe, o pai e mais alguns junto com ele, tal a velocidade com que lhe consumia os recursos e a alma. De qualquer maneira, depois de se deixar enterrar nesse mundo, era uma questão de tempo até deixarem de existir sem fazer nada para o evitar…
Mas estávamos a falar de crescimento! E eu adorava ficar ali, tipo lagarto ao sol plantado, a olhar para os botões das roseiras que no dia seguinte se transformavam em belíssimas flores, para o lento arrastar dos caracóis nas folhas húmidas, um verdadeiro petisco para alguns esquisitos gostos, para as lagartixas a porem as cabeças de fora dos buracos e para as crianças, a correrem pela relva livres e aos gritos, como se a placa lá colocada a proibir o decalque, fosse um simpático convite a fazê-lo. Claro que os jovens papás, de mão dada e sentados no banco em frente, riam-se muito, achando piada à formidável capacidade das criancinhas destruírem o jardim e, simultaneamente, se divertirem tanto. Orgulho e algum inchar de vaidade, pela sua própria originalidade de serem eles mesmo a porem os filhotes no jardim, levantando-os no ar e ajudando-os a ultrapassar o arame insignificante e estúpido lá colocado.
E depois, cresciam. E já não eram os papás que os levavam, mas eles próprios pelo seu pé, indiferentes aos protestos da velha mulherzinha que estava encarregue de olhar pelo jardim, sempre a tentar correr com eles e, principalmente, com as cenas ditas vergonhosas que eles faziam alarde em mostrar, sem qualquer pudor por quem passasse ou pensasse de outra forma, nomeadamente praticarem a nobre arte do sexo livre durante a noite ou entardecer, ou acenderem cigarros e queimarem colheres com papel de prata para práticas, no mínimo, duvidosas. Enfim, verdadeiros artistas na arte da depravação e auto-destruição, com a agravante de se rirem muito e acharem muita piada a tudo aquilo, exactamente como os papás fizeram há alguns anos atrás. Também era importante o estatuto, o estilo com que se vestiam, seguindo a mesma linha do que tinham visto e aprendido, na escolha das sapatilhas Nike ou das calças Levi’s que, não era de todo relevante se gostavam ou assentavam bem, mas simplesmente se eram as mais caras da loja e melhores que as dos amigos. Se ficavam a cair pelas pernas abaixo, deixando as cuecas à vista como que um apelo à liberdade sexual nas prisões americanas ou não, não era preocupante desde que provocassem inveja suficiente nos outros. Enfim, limitávamo-nos a observá-los a crescer sem emitir opinião, ou acharmos que aquelas figuras ridículas não eram mais do que modas tendenciosas que, como o tempo, também iriam desaparecer.
O que já não se aplicava aos vícios que, ao contrário da moda, iam-se agravando até ao descontrolo total, transformando o crescimento dos jovens em desgaste rápido, embora alguns conseguissem mesmo fazer uma vida paralela ao vício, com casamentos mais ou menos falhados e concepção de filhos, definitivamente errada! Durante anos, até a eles se conseguiam enganar, criando a ilusão de uma normalidade raramente ensombrada por um problema de fácil e rápida solução, quando lhes apetecesse. Quem os ouvia, ficava preso à ideia de que tinha sido mau juiz e abusado da boa vontade dos pobres inocentes…
Depois, os pequenos arbustos transformavam-se em gigantescas e lindas árvores de fruto ou sombra, capazes de proporcionar prazer, paz e alegria a muita gente, as lagartixas continuavam a ser lagartixas, enquanto os caracóis eram comidos e as crianças, que se tinham tornado jovens e depois adultos e, os que tiveram sorte em velhos, sentávamo-nos nos bancos dos jardins, a observar com a calma só agora possível, os novos rebentos a aparecerem em busca do seu espaço e do seu lugar na terra. Alguns encontravam-no outros não… dependia das armas que tivessem para lutar pelos seus objectivos sem olhar para trás ou para o lado, das lições que fossem capazes de aprender e reter e, da forma consciente ou inconsciente como decidissem fazer a “viagem” por este mundo…

sábado, 28 de maio de 2011

A paixão, ou o amor... - Publicado no Correio do Minho em 22/03/2011

Por experiência, ou pelo que vemos nas revistas cor-de-rosa, amar é algo maravilhoso, intenso e eterno. Naturalmente que, quando usamos a cabeça para pensar, percebemos que o amor é muito mais do que isso, ou, um sem numero de outras vezes, não é nada disso! Facilmente nós, os simples mortais, temos dificuldade em aceitar que o amor não se negoceia, não se pensa, não se julga nem se cobra… simplesmente está lá, respira-se, sente-se, sonha-se, imagina-se, em suma, está lá!
Claro que à sempre quem confunda com paixão! A paixão é, segura e indiscutivelmente, a melhor sensação que se pode ter. Em segundos e sem razão, transporta-nos para um outro mundo, onde nos esquecemos com frequência até do nosso nome, quanto mais das inesquecíveis noites de fogo, de raiva, de loucura, onde nos sentimos capazes de tudo e, não poucas vezes, acordámos com uma lágrima no canto do olho. A nostalgia da recordação preenche-nos os sentidos durante alguns dias, ocupamos os nossos pensamentos com planos de repetição, perdemos horas e horas em longas conversas que, no final, não têm qualquer significado a não ser programar mais uns minutos de libido enlouquecido. Mas não podemos nunca deixar de alimentar a chama da paixão, pois ela funciona como as antigas locomotivas… sem o carvão atirado para a fornalha, pára. Assim, convém aos amantes manterem a rédea curta e, jamais permitirem que a chama corra o risco de se apagar, ou que seja alimentada por outro soprador, correndo o risco de perceberem que afinal aquele tão intocável amor era, afinal, só uma tórrida paixão.
Porque amar é muito mais do que isso. É saber ouvir no silêncio, é ver na escuridão, é perceber a cumplicidade com um olhar, é dividir todos os pensamentos incluindo os que magoam profundamente a alma, é existir para servir o outro em todas as horas difíceis ou boas, é estar lá surgindo do nada com um sorriso pronto e nunca, nunca pedir nada em troca. Nem sequer ser amado… porque a paixão, vive-se a dois, sempre! O amor, não… o amor é único, sem paralelos ou sentidos. Existe dentro de cada um de nós, cada um sente-o à sua maneira, e cada um vive-o à sua maneira! Enfim, é algo amadurecido com o tempo, como um vintage de boa cepa ou um sonho que nunca acaba…
Quando somos jovens e, às vezes menos jovens, caímos na ilusão de acharmos que um dia, quando amarmos alguém de verdade, vamos ser sérios, fiéis e eternamente dedicados ao outro. Acreditamos sinceramente nisso, até mesmo quando o céu nos cai em cima e percebemos que, afinal, confundimos tudo, simplesmente porque o amor não é algo que caia do céu ou nasça da terra. Tem que ser construído! Tem que se juntar pedaços de confiança, de amizade, de companheirismo, de humor, de dor, de sexo, de desilusão, de tristeza, de sacrifício, de imaginação e de mais um milhão de “tijolos” diferentes e, lentamente, muito lentamente, colocá-los uns por cima dos outros e construir algo parecido com amor. E, mesmo assim, a maioria de nós não vai conseguir chegar lá…
Em contrapartida, chegámos todos à paixão! Em certos momentos da vida, ela surge repentinamente e ataca todos os movimentos, todos os sentidos e todas as reacções a partir daí. Escrevem-se poemas, livros de prosa romântica, gastam-se cabeças de dedos nos teclados dos telemóveis e pc’s, noites em claro a pensar num ou noutro momento, vive-se as festas e os jantares nas discotecas sempre com um olho colado à porta de saída, suspira-se muito e mente-se muito! Mas claro que vale a pena viver uma paixão, pois sem ela a vida não tem sabor, não tem sal… desde que haja consciência de que o facto de duas pessoas estarem apaixonadas uma pela outra, não significa que se amem. É obrigatório viver a paixão, sentir a paixão e, se houver oportunidade de ultrapassá-la sem mágoas e sem feridas, a porta para o amor fica aberta de par em par. Aí, deixa de ser necessário fingir ou forjar loucuras, calores e lágrimas, bastando ser verdadeiro e igual a si próprio, sem medo de falhar, sem medo de perder, sem medo de ser humano e, como tal, cometer erros. Porque muito mal vai o amor, quando o perdão é só uma palavra dos livros e dos filósofos… a essência do amor, é a capacidade de perdoar os erros do outro sem julgamentos precipitados nem condenações antecipadas.
Concluindo, o mundo e os homens de ambos os sexos vivem numa utopia, acreditando que basta quererem para conseguirem amar. Não é bem assim… como disse antes, o amor dá uma trabalheira monumental, peça a peça montada num gigantesco puzzle que é a mente humana e, acima de tudo, só alguns eleitos têm a capacidade de perdoar! Esses sim sentem, respiram e vivem o amor… e sabem que não existe nada tão transcendental como amar alguém…

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os Loucos ou o nosso outro lado - Publicado no Correio do Minho em 17/05/2011

Quando pensamos nos loucos, pensamos em hospitais psiquiátricos onde são internados aqueles que, por este ou aquele motivo, perderam a noção da realidade e mergulharam num mundo só deles. Um mundo fechado e estranho para a maioria de nós, mas tão real e normal para os que lá estão… sendo que, por muito que os médicos, apoiantes e voluntários que todos os dias se esforçam por compreendê-los, estejam só a desgastar as suas próprias capacidades. E nem sequer está em causa a sensibilidade ou a dedicação com que encaram cada novo dia, sempre um passo à frente do desânimo e da descrença, pois a maioria de nós desistiria ao fim de algum tempo, ou, nem sequer teríamos coragem para tentar…
Mas esses, são os loucos que conhecemos, ou desconhecemos, mas sabemos que existem. Onde tudo se torna mais estranho e inexplicável, é no momento em que os loucos que não estão identificados como tal, se revelam como gente normal e saudável, e cometem actos de loucura tão insanos que nem os ditos loucos conseguem explicar. Vamos contabilizar todas as vezes que nos arrependemos, um dia depois, ou mesmo uma hora depois, de atitudes que tomamos que, até nós próprios, temos dificuldade em acreditar que fomos nós que as tivemos, e não outro qualquer. Chegamos mesmo a duvidar da nossa sanidade mental e a perguntar-nos como foi possível tal coisa nos passar pela cabeça… e começamos a ter medo. De errarmos e não nos darmos conta! De prejudicarmos quem amamos, por ignorância, de não sermos capazes de funcionar razoavelmente e, pior do que tudo isso, algo falhar no nosso cérebro, transformando-nos nos tais loucos identificados como tal: daqueles que falam sozinhos enquanto caminham pela rua, ou pedem cigarros a todos com quem se cruzam, ou se riem como perdidos sem qualquer motivo. Bem como, daqueles que preferimos virar a cara e passarmos para o outro lado da rua, evitando cruzamentos que nos embaraçam…
Se pensarmos um pouco, iremos descobrir que também nós temos um pouco de loucos ou, pelo menos, temos coisas que não conseguimos perceber, nem justificar. Se assim não fosse, como poderíamos aceitar o que estamos a fazer com os nossos jovens? Passamos a sua adolescência a criar-lhes a ilusão de que vão poder ter a vida que desejam, desde que para isso se apliquem, estudem e não cometam erros irreparáveis. Pura mentira que, bem lá no fundo, nem nós acreditamos, à medida que os vamos vendo a saírem das faculdades cheios de boa vontade e ilusões rapidamente desfeitas, mal tentam encontrar trabalho num mercado cada vez mais competitivo e agressivo. Quando deixamos de sustentar as nossas famílias, desbaratando os poucos recursos que dispomos, em vícios, jogos ou satisfação pura dos nossos desejos, não estaremos a ser tão loucos como os registados como tal? Quem define onde começa e acaba a loucura dentro de cada um de nós?
Aceitemos ou não, todos nós vemos, todos os dias, a capacidade do ser humano em magoar o seu semelhante. Nos jornais ou televisões, em notícias mais ou menos fidedignas, facilmente constatamos a ligeireza com que se fazem guerras, se destroem os mais fracos e desprotegidos, se explora a credulidade dos distraídos, se deixa morrer à fome milhões de crianças espalhadas pelo mundo! Quem precisa de mais loucura? Não nos podemos esconder num buraco, olhar para o lado ou simplesmente atravessar a rua para o outro passeio… porque, queiramos ou não, todos somos coniventes, e fazemos parte desta loucura comum!
Os fingidos inocentes delegam, totalmente, a responsabilidade dessa loucura para os outros, para os governantes ou para os ditos ambiciosos senhores do poder. Mas sejamos honestos… e a nossa quota-parte? A treta dos “filósofos” de que a nossa liberdade começa, quando a dos outros acaba, encaixa-se em que momento? No momento em que sabemos que, ali mesmo ao nosso lado, está alguém que podemos ajudar e, mesmo assim, fazemos de conta que não percebemos?
A verdade é que todos nós patrocinamos a loucura, todos os dias, na nossa dimensão e na nossa realidade… e fingirmos que não vemos ou não sabemos, não vai fazer com que ela desapareça…

Exposição Vieira do Minho 2008 ( Abril )