“Impressionante!
O elefante saltava de onda em onda, como se soubesse exatamente onde estavam as
pedras. Sim! Porque era impossível não haver um manto de pedras por baixo
daquele mar imenso… ou era possível? Não sei. O que sei é que naquela imensidão
escura e feia, a única coisa linda era mesmo o brilho azulado do bicho, a
saltar de um lado para o outro. Senti os olhos húmidos e esfreguei os olhos com
força… e pronto! O elefante azul desapareceu! E desapareceram as ondas! E
desapareceu o mar… ficando só o esplendor do sol a queimar-me a pele. Por
momentos, senti que precisava de sair dali… eu já tinha ouvido um monte de
histórias de gente queimada pelo sol que, mais cedo ou mais tarde, sofria
doenças dolorosas, ou mesmo fatais, e não queria acabar como elas. Infelizmente,
a divina providência, ou lá o que era, veio em meu auxílio e, sem perceber bem
como, começou a chover torrencialmente, o que me obrigou a levantar como uma
mola…”
Gesto
que me fez tropeçar e embater, violentamente, no guarda-vestidos ao lado da
cama. Merda! A merda dos sapatos, às escuras e uma pancada com a cabeça no
móvel. Pior ainda. A minha mulher acorda, sobressaltada e acende a luz do
candeeiro. O blá blá do costume, a cara irada de raiva, meia dúzia de insultos,
e eu digo-lhe que está tudo bem, que durma pois tive só um pesadelo chato.
Viro-lhe costas e enfio-me no quarto de banho, deixando-a a resmungar sozinha.
O silêncio acaba por vencer, enquanto me deixo estar sentado na sanita, sem
vontade de ter mais uma discussão. O que é que ela sabe? Nada! Nada de nada!
Levanto-me quando a ouço ressonar e abro a torneira do lavatório, deixando
correr a água lentamente. Recuso-me a olhar de imediato para o espelho, mesmo
sabendo que vou acabar por fazê-lo. Esfrego a cara e os braços vigorosamente e,
durante uns minutos, a sensação de frescura ajuda-me a perder a sensação de
pele queimada. Finalmente, olho-me ao espelho… sou eu, sim. Claro que sou eu!
Belo e único. Um ser perfeito, sem mácula ou defeito que se possa apontar.
Sorrio e o espelho corresponde, sorrindo-me também. Ótimo!
Estou
melhor, mais calmo e animado. Volto a deitar-me sem qualquer ruído, as molas do
colchão não contam, sentindo a minha mulher virar-se para o outro lado. Instintivamente,
ela afasta-se evitando encostar-se a mim. Problema dela. Fiquei o mais quieto
possível, a respirar lentamente, a tentar adormecer sem pesadelos de elefantes,
de mares, de sóis de preferência, o que não é fácil... e o despertador toca, e
toca, sem controle nenhum! Não acredito que já são seis da manhã! Estendo a mão
e desligo-o, de uma forma automática e sempre surpreendido por aquele barulho
infernal não acordar a minha mulher! Talvez esteja tão habituada a ouvir aquela
porcaria que já nem liga nenhuma. Ainda antes de me mexer da cama, já sinto as
pernas cansadas, moídas. Tem que ser. Levanto-me, entro na casa de banho e
fecho a porta. E apanho um susto tremendo quando me olho ao espelho. Aqueles
olhos tão mortiços, tão encovados são os meus? O meu verde límpido, que em
tempos encantou meia prole
feminina deste mundo, desaparece com meia dúzia de noites mal dormidas? Bem,
devo ser eu a exagerar… de certeza que, se quisesse, ainda conseguia conquistar
qualquer uma! Lavo a cara, desfaço a
barba e visto-me meio às escuras.
Pico
o ponto, exatamente às seis e meia, ponho o meu melhor sorriso, o amarelo não
conta, e começo mais um dia de trabalho. Como habitualmente, os meus colegas
também estão meio a dormir, pelo que ninguém se apercebe do meu cansaço. Lanço
para o ar umas graçolas, comento o jogo do Sporting da noite anterior e,
devagar, devagarinho, vou organizando o dia de trabalho de toda gente. Afinal,
estão sob a minha responsabilidade. Por algum motivo que não tenho bem a
certeza, lidero uma equipa de homens e mulheres, alguns mais velhos e mais burros
que eu, mas lidero. Meia hora depois, com o ritmo de trabalho já instalado,
estou cheio de estar ali! As pernas tremem-me como gelatina. Os olhos
fecham-se-me sem contar e a merda da comichão espalha-se pelo corpo todo. Olho
em volta e, quando percebo que não estão a olhar para mim, esgueiro-me
sorrateiramente e enfio-me no quarto de banho. Fecho a porta à chave. Ali no
trabalho, não dá para facilitar. Eles, os monstros todos, estão ali à volta, só
mesmo à espera que eu dê um passo em falso para me comerem vivo! Mas não! Não
vão conseguir! Eu sou muito mais esperto do que eles todos juntos… Volto a
passar água na cara, componho a camisa e a gravata no meu melhor estilo,
afivelo o tal sorriso e saio. Ninguém deu pela minha falta, naqueles quinze
minutos. Ótimo! E para as seis da tarde, já não falta assim tanto! Só onze
horas, mais coisa, menos coisa.
O
dia passa num turbilhão de gente a correr para não perder os últimos produtos;
como se a fonte estivesse a secar ou o stock no fim. Obviamente que não! Era a
pressa, o frenesim da competição, a caça ao mais apetecível pedaço do que quer
que fosse, mesmo de coisas que não precisavam para nada mas que, se não as
comprassem, o cliente ao lado iria comprar. E ninguém quer ficar para o fim,
pois não? Enquanto percorro os intermináveis corredores da loja, vou olhando
disfarçadamente para o relógio, à espera que tudo aquilo acabe, que o dia
chegue ao fim! O olho grande, na forma de minúsculas câmaras de vigilância
espalhadas por todos os cantos, segue os meus passos, um a um. Ninguém me tinha
dito, mas eu tinha a certeza disso! Os maiorais afirmavam que a vigilância era
para os clientes, principalmente os que entravam com sacos grandes e mãos
ligeiras e trocavam o lugar dos produtos, entre as prateleiras e os sacos. Mas
era mentira! Uma refinada mentira! Eu sabia bem o que os gajos lá de cima,
sentados nas suas cómodas cadeiras e de olhar fixo nos visores estavam
realmente à procura... Apanhar-me a mim ou outro colega, encostado a dormitar a
um canto ou a fazer de conta que trabalha e pôr-nos na rua!
O
almoço! Uma pausa de uma hora que, mal saía e respirava um pouco de ar puro
voltava a entrar. Se bem que não me fazia grande diferença, pois comer não me
dava gozo nenhum, nem que fosse lagosta ou leitão. O que nunca era, já que o
dinheiro nunca chegava para nada. Passava pela mesa, olhava para a comida e
sentia-me enjoado, com vontade de sair de casa e voltar para o trabalho. E
depois, não sei porquê, era sempre eu que apanhava bicharada nas alfaces, nas maçãs,
na sopa. E reclamava, como é natural! O que não adiantava nada; que estava a
ficar maluco, que só arranjava desculpas para não comer, que estava magro como
um cão, enfim, que eu é que era complicado. Alguns dos meus amigos, se é que
podia chamar isso aos gajos que paravam comigo ao fim da tarde no café para uma
merecidas cervejas, diziam que eu, ultimamente, estava a ficar mais magro. Que
teria perdido uns dez quilos nos últimos quatro ou cinco meses. Ridículo! Eu
sabia bem que estava ótimo, com o peso ideal e equiparado a qualquer modelo
masculino da moda! E aqueles gajos não tinham espelhos? Cambada de inúteis,
nenhum se aproveitava! Se tivessem que trabalhar no duro como eu para sustentar
uma casa, uma mulher, dois filhos, uma infinidade de prestações disto e
daquilo, iam saber o que era a vida! E descobrir os motivos de estar mais
magro! Tinha que estar, não?
Regressei
para uma tarde igual à manhã. Talvez pior um pouco, pois à medida que as horas
iam passando, a minha ansiedade aumentava na mesma proporção. Sentia as
comichões a incomodar mais um bocado e ignorava a tremura das mãos facilmente.
Pegava neste produto, ou noutro qualquer, mudava-o de um sítio para o outro,
mexia-me de um lado para o outro, entrava e saía do armazém sempre com uma
atitude frenética, obrigando os gajos do olho grande a estarem constantemente
em movimento. Deviam ver-se gregos para me acompanhar mesmo com a muleta das
câmaras! Eu sou muito esperto... está ainda para nascer o gajo que me apanhe a
dar um passo em falso! Eu controlo tudo! Eu vigio a minha retaguarda minuto a
minuto... a mim não me hão de apanhar, nunca!
Finalmente
acabou por hoje. Na hora certa, diga-se. Entrei no carro e voltei para casa. Ou
melhor, para o café por baixo da minha casa. Agora, era o meu momento de relax.
Sentar-me sossegado com uma cerveja bem gelada na mesa e ler os jornais do dia.
Principalmente, os diários desportivos, já que as noticias do mundo real não me
interessavam muito. Queria lá saber de atentados no Iraque, das guerrilhas no
Sudão, da queda das bolsas europeias, das ameaças dos coreanos ou das
inaugurações das Agropecuárias. Tudo treta! Tudo gente cheia de massa nos
bolsos, a chatear os tesos como eu. Na página vinte e seis, acho, achei piada
ao valor das transferências dos jogadores de futebol. Aquilo só dava mesmo para
rir. Absurdo! Bem, era um absurdo, mas o que podia eu mudar? Nada! Uma hora
depois e a meio da terceira cerveja, o meu puto veio chamar-me ao café. Pensei
num palavrão feio, mas engoli-o. “A mãe está a dizer para subires, vamos
jantar. E então, pai? O dia correu bem? Tiraste as cópias que te pedi? Hoje
levas-me ao treino?” Fiz um esforço para me controlar e não correr com ele para
casa. “Senta-te aí, pá! Queres uma coca-cola?” “Fixe, pai!” Ainda assim, olhei
para as moedas que tinha no bolso a ver se dava para a despesa, sem que o meu
rapaz se apercebesse. Três cervejas, uma coca-cola, três euros e setenta. Bem,
não chegava. O que valia era que o moço do café, um gajo porreiro, já me
conhecia e confiava em mim. E amanhã também era dia!
Subimos
juntos. Eu já estava um pouco toldado, mas bem-disposto. Mais um esforço e mais
um dia que estava ganho. Ou adiado, já que agora era difícil disfarçar o tremor
das mãos e a incomodativa comichão que me assolava o corpo. Despachei rápido o
jantar e desci para ver o futebol no café, com o meu rapaz atrelado a mim! Não
que me interessasse muito, mas era uma boa desculpa. Deixei o puto no treino e
entrei no meu mundo perfeito. Sozinho, divaguei por lugares mágicos e quentes,
por lugares nunca antes viajados, por desejos e sonhos lindos e possíveis.
“As
cobras entravam e saíam pelos buracos do meu corpo. Devagar, percorriam cada
veia, cada artéria, insinuando-se dentro de mim como se o meu corpo lhes
pertencesse. Prometiam a paz, a serenidade, com as flores a crescerem
livremente nos jardins e as andorinhas a voarem no céu. Adorava aquela
sensação. Olhava para elas, lentas, suaves, umas esverdeadas, outras
amareladas, outras ainda com uns risquinhos vermelhos a marcarem os anéis
perfeitos da pele brilhante e escorregadia. Eu via-as debaixo da minha pele…
olhei para os meus braços e vi, distintamente, as sacanas a subirem desde os
pulsos até aos cotovelos. Ah, mas nas pernas é que era um verdadeiro
espetáculo! Várias ao mesmo tempo, eriçavam-me os pelos, davam-me tesão,
subiam-me pelas pernas acima, davam-me sossego, faziam de mim aquilo que nenhum
ser humano conseguia. Euforia! Poder! Quem diria que bichinhos tão repelentes
para a maioria das pessoas, a mim me davam a impunidade do prazer?
Transmitiam-me confiança, transcendiam as minhas capacidades, elevavam-me às
nuvens! Ri-me sozinho, à medida que as tremuras das mãos iam desaparecendo, que
o cansaço se perdia no esquecimento, que jurava para mim mesmo que era a última
vez…”
Saí
da garagem com cuidado, não fosse algum parvalhão dos meus vizinhos me ver e
achar estranho um homem sair sozinho da garagem, sem carro, às dez da noite.
Enfim, até de mim próprio eu tinha que me esconder! Subi, airoso e animado, até
gracejei com a mulher e com a miúda que tinha acabado de chegar da faculdade e
fui-me deitar. Antes, ainda bebi um gole de um bom bagaço que tinha para lá
escondido na garrafeira e ouvi a patroa a queixar-se da falta de detergente
para a máquina de lavar louça. Como? O que tinha eu com isso? Era tudo para
mim? Não chegava ter que trabalhar o dia todo e ter que ganhar para aquilo
tudo? Ainda tinha que me preocupar com a merda do detergente? Fiz ouvidos
moucos e virei costas, levando comigo um chorrilho de tretas, mais ou menos
intensas. Não liguei nenhuma! Hoje não! Tinha que me deitar, antes que as
tremuras e as comichões voltassem e se tornasse incontrolável a vontade de “viajar”
outra vez…
“A
cabeça batia contra a parede, ao mesmo tempo que a parede batia contra a
cabeça. Achei estranho não haver sangue até que, finalmente, percebi porquê.
Não era eu! Alguém, do outro lado da minha memória, vingava-se no betão e
ria-se perdidamente. Era, obviamente, muito mais forte, muito mais duro,
indestrutível. Se assim não fosse, aquela cabeça estaria pior que um melão
maduro esborrachado no chão! Eu fiquei sentado, muito quieto entre as sombras
do muro, na expectativa de ver como aquilo acabava. Das duas, uma! Ou desistia
o homem, ou desistia a parede… o homem acabou por adormecer, deixando-se
escorregar pela parede abaixo, mergulhando num sono leve e agitado,
estremecendo sem cessar como se os demónios estivessem a comer-lhe as entranhas.
Se calhar, estavam mesmo… que se lixe! Não era nada comigo! Limitei-me a sentir
pena do homem, da loucura que exprimia, tive pena da parede e fui-me embora!”
Acordei
banhado em suor. Ainda era noite cerrada. Pelo canto do olho, vi que o relógio
do despertador marcava quatro e vinte da manhã, sendo que os únicos ruídos eram
os carros a passar velozmente na avenida. As pernas doíam-me. As mãos suavam e
sentia os olhos pesados. Precisava, desesperadamente, de descansar, esquecer os
meus problemas e encarar o dia seguinte com coragem. Descobrir formas de pagar
todas as contas, sem ter que pedir dinheiro a este e àquele. Ok! Tinha uma
família, mas longe da minha realidade. O que sabiam eles? Levantei-me e fui até
à varanda, onde me sentei na velha cadeira de plástico e fiquei ali, no
silêncio da noite, às escuras, tentando ver alguma coisa para além de mim próprio…
mas era difícil. Os meus dias começavam e acabavam sempre da mesma forma, sem
qualquer objetivo que não fosse acordar no dia seguinte e tentar que ninguém me
conhecesse por dentro… e amanhã? Ou melhor, daqui a pouco? Quando o dia
nascesse e tivesse que ir outra vez trabalhar? E no fim do dia, fazia o quê? Voltava
a ficar a dever ao gajo do café? Comecei a magicar… a ter ideias, a pensar em
soluções… e levantei-me, sorrateiro, aproveitando a fraca luz que entrava no
quarto. Silenciosamente, descobri a carteira da minha mulher pousada na cadeira.
O meu coração acelerou, disparou como uma bala perdida, na expetativa de não
ser apanhado em flagrante. Ali não tinha hipótese. Estava escuro e, ao mais
pequeno ruído ela iria acordar, o que levaria a uma tremenda discussão. Peguei
na carteira, abri a porta do quarto e, o mais silenciosamente possível fui até
à cozinha, onde liguei a luz e antecipei o prazer de ter dinheiro no bolso.
Abri a bolsa, procurei o porta-moedas e, sorrindo abri-o de par em par. Vazio!
Vazio? Nada de nada! Nem uma única moeda! Tirei tudo para fora e fui espalhando
na mesa da cozinha, lenços de papel, o telemóvel dela, a carteira com os
cartões de multibanco, do supermercado, das lojas de marca, dos descontos nas
bombas de gasolina, do ginásio que já não frequentava há dois anos, o cartão de
cidadão. Todos, menos dinheiro! Nem moedas, nem papel. Nada! A bolsa dos
óculos! O esconderijo perfeito! Abri-o, convencido que tinha descoberto a
pólvora. Nada, novamente… uma estranha sensação de ter sido enganado, começou a
apossar-me dos meus pensamentos, associado a um receio irracional de ser
apanhado ali na cozinha, com aquela bagunça espalhada na mesa. À pressa, meti
tudo novamente dentro da carteira e, pé ante pé, voltei a pousá-la na cadeira do
quarto. Caramba! Ainda ao jantar me tinha dito que só tinha trinta euros até ao
fim do mês… e onde estavam? Nem sequer tinha saído de casa, não os podia ter
gasto. Escondeu-os! Claro! Só os podia ter escondido… que merda é esta? Não era
eu o único que ganhava dinheiro ali? Esconder o meu próprio dinheiro?
Apeteceu-me esganá-la enquanto dormia… Respirei fundo, várias vezes, tentando
controlar a minha raiva, acabando por me deitar e tentar esquecer aquela
passagem noturna. Deus tira, mas também dá…
À
hora habitual, o despertador. Ao fim de alguns anos naquilo, já se tinha tornado
num amigo, embora fosse daqueles amigos difíceis de aturar. A rotina de sempre,
um banho rápido e indesejado, a roupa às escuras e um novo dia de trabalho pela
frente. Felizmente era sábado, o que significava que era o último dia da
semana. Antecipei um fim de tarde e noite engraçados, mas para os ter, teria
que inventar dinheiro. Bem, saí de casa depois de dar uma espreitadela nos
quartos dos miúdos. Dormiam como justos… A minha cabeça voava entre a forma de
conseguir arranjar dinheiro e o almoço de domingo, mais uma valente seca
inventada por um tio mais velho, irmão da minha mãe e arvorado em patrono
familiar. Enfim, mais um dia perdido em que teria que disfarçar um prazer que não
tinha, uma máscara de alegria e felicidade que poucos imaginariam ser uma
mentira. Eu queria lá saber deles! Nunca me ligaram nada! Nunca se interessaram
se eu ou a minha gente estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, nada!
Sempre me senti a ovelha ranhosa da família e, se me perguntassem porquê, não
fazia a mais pequena ideia. Ou talvez fizesse…pois, também não queria saber
deles, para nada! Durante os cinco minutos que demorei até ao trabalho, pensei
que talvez os miúdos fossem a solução… aqueles colares de prata, aqueles anéis
que o namoradito da rapariga lhe ia dando, talvez dessem alguma coisa. E, eram
já alguns, pelo que dariam para uns momentos bem passados! Um pouco mais
animado, passei o dia no trabalho a magicar na forma de lhos tirar, sem que ela
desse conta ou me relacionasse com isso. Não era difícil! E o porquinho do
miúdo também teria algumas moedas, de certeza! Ele andava a juntar as prenditas
que lhe iam dando para comprar um jogo novo para a consola. Até a mim já me
tinha pedido e eu, feito parvo, tinha-lhe dado três euros que me faziam falta
agora.
O
fim da tarde chegou, tal como determinado pela natureza. Com ele, toda a minha
ansiedade. Entrei em casa sorridente, com a ideia fixa de despistar os putos e
ter oportunidade de procurar no quarto deles. Tive sorte! Só estava em casa a
minha mulher que, após um custoso “correu bem?”, voltou para a cozinha e para a
preparação do jantar. Eu agradeci silenciosamente a sua estupidez e, um minuto
depois, estava a tirar a tampa de plástico do fundo do porquinho. Maravilha!
Dezasseis euros em moedas. Bom! Muito bom! Enfiei-as rapidamente no bolso das
calças, voltei a meter a tampinha e saí do quarto dele, com um sorriso de orelha
a orelha. A mesma sorte no quarto da miúda, e eu tinha o dia ganho… oh, Deus
dos deuses, ela tinha uma nota de vinte euros muito bem dobradinha, escondida
dentro de uma carteira no guarda-vestidos. E as pratas! Metidas num cofrezinho
de vime, a imitar um guarda-joias, dois colares e dois anéis. Fraquinhos, mas
que no conjunto, deviam valer outros vinte euros. Parei uns segundos, tentando
ver se vinha algum ruído da cozinha, mas nada… ótimo! A minha ideia tinha sido
genial. De um momento para o outro, de nada tinha passado a ter, pelo menos,
cinquenta euros no bolso. Podia haver algo melhor? Duvido…
“A
guerra ou a paz… que diferença fazia? Afinal, fosse de que forma fosse,
estávamos todos tramados, todos iríamos morrer um dia… Eu fiquei ali, no
paredão, sentado, a ouvir o grasnar esganiçado das gaivotas, a sentir o vento
bater-me com força na cara e a rir-me das baleias a tentarem entrar pela praia
dentro. Aqueles corpos gigantescos, a espumarem frustração e raiva, feitos
minúsculos caranguejos a meterem o focinho na areia… Azul, amarelo, verde ou
vermelho, as cores passavam-me em frente dos olhos e o bem-estar era
indiscritível. Eu sou o único, o maior! Sexo? Isso é o quê, comparado com a luz
eterna que sinto dentro de mim? Quem, no seu perfeito juízo, pode avaliar a
força de um homem? Ah, chegou o elefante! Grande, imponente, azul, postou-se
sentado na borda do mar a observar a ginástica das baleias e o seu esforço para
entrarem na praia. Se aquilo não era um riso gutural e cavernoso, era lá perto!
O sacana riu-se mesmo! E sem pruridos ou respeito algum, agitou a tromba para a
direita e para a esquerda e correu com a baleias para o mar, obrigando-as a fugir
a sete pés! A mim convenceu-me… adorei o bicho, o seu poder, o seu gozo…”
Quem
sou eu? Domingo, deitado, sem o despertador, a olhar o teto pintado de restos
de sangue de mosquitos e a rever a minha vida, a pensar no fundo do poço das
minhas ilusões. A ouvir as queixas do miúdo à mãe, do porquinho vazio, do
frenesim da miúda á procura das suas simbólicas joias, da solidão do meu
silêncio, da vergonha das minhas tremuras e do meu medo de ser descoberto. Era
uma questão de tempo, de horas, de minutos até alguém se lembrar de mim… neguei
tudo, claro! Como era possível eles pensarem que eu faria uma coisa dessas?
Tudo aquilo era meu ou não, caramba? Porque faria eu uma coisa dessas?
Insurgi-me e fiquei revoltado, levantei-me, vesti-me e saí porta fora. Precisava
de um Martini! Ou uma cerveja! Ou a merda de um amigo qualquer que me pagasse
um café! Um turbilhão de pensamentos enchiam a minha cabeça e quando entrei no
café, sem um tostão no bolso, senti o olhar acusador do gajo porreiro. Nunca me
via de manhã, era visível a sua surpresa, a sua cobrança implícita… Pedi-lhe
mais um dia, mais uma oportunidade. E ele, de alguma forma, não foi capaz de me
dizer que não, talvez a pensar na minha mulher, nos meus filhos…
Depois
de um café simples, uma vista rápida pelos jornais, deambulei durante muito
tempo vários quarteirões perto de casa, afastando de mim os pesadelos das
noites mal dormidas, das acusações sem palavras, das histórias mal contadas,
das mentiras diárias e constantes. Pensei na minha pobre mãe, nos seus antigos
e amigáveis sonhos e planos para mim, nos meus ingénuos e crédulos irmãos, no
meu falecido e amado pai, nos meus adormecidos projetos para o futuro. Pensei
em toda uma vida que eu queria ter vivido, mas que por crueldade do destino,
nunca consegui. Do destino? Não, não foi o destino que me empurrou para o
abismo…fui eu, sozinho…
Parei
num banco de madeira, num jardim qualquer, e sentei-me. Nada fazia sentido,
nada tinha significado. Senti-me um trapo velho… amargurado demais para
levantar a cabeça, vazio demais para olhar os outros de frente, angustiado
demais para acreditar que ainda era possível, cego demais para conseguir ver
que alguém ainda me amava, triste demais para acreditar em algum futuro,
desanimado demais para começar de novo, descrente demais nas minhas próprias
forças e, acima de tudo, envergonhado demais para aceitar a minha realidade… e
chorei. Chorei sem tempo, sem limites…
Lentamente,
fui regressando à vida e a casa. De alguma forma era o único sítio para onde
podia ir. Não tinha mais nada, nem ninguém. Com os pés no chão e, por muito
cego que estivesse, não existiam elefantes tão poderosos, nem cobras tão
bonitas, nem êxtases tão intensos, nem baleias perdedoras… só existia eu, os
meus medos, os meus demónios, os meus pesadelos. Mesmo evitando a pergunta,
mesmo tendo medo de saber a resposta, mesmo sabendo que não havia resposta, era
inevitável… quem sou eu, afinal?
Não
sou ninguém… Benvindo ao meu mundo… ao mundo de um viciado em cocaína…




