sábado, 23 de abril de 2011

A nossa história, a nossa vida - Publicado no Correio do Minho a 05/04/2011

Escrever uma história é simples…
Alguém disse, um dia, que escrever uma história é simples. Começa com uma letra maiúscula e acaba na palavra fim… o complicado é o que se escreve no meio! Exactamente o que acontece a cada um de nós, no momento em que nascemos e começamos a escrever a nossa história…
Nascemos sem pedirmos e, na maior parte das vezes, porque fomos desejados por alguém que já nos amava ainda antes de nos conhecer, e que ansiosamente nos aguardava. Até aqui, está tudo muito bem… mas o problema começa precisamente nesse dia, pois à medida que crescemos, vamos escrevendo cada uma das palavras que justificam ou não a nossa chamada à vida, acabando tudo no dia em que partimos definitivamente.
Durante a “viagem”, umas vezes curta, outras, longa, escrevemos cada capítulo passando por inúmeras dúvidas existenciais e por uma infinidade de situações que nos vão rescrevendo a história, passo a passo, momento a momento. Não somos máquinas, mas tão só seres humanos, com todas as deficiências que advêm dessa condição de mortais, pelo que, a forma como escrevemos a nossa história, ou a história da nossa vida, depende quase exclusivamente de nós. Quantas vezes, não se cometem erros, de que mais tarde nos arrependemos? E, enquanto for assim, nem é mau de todo! Pior é quando erramos, sabemos que erramos, e não nos arrependemos por maldade, ignorância ou estupidez.
Certamente que, durante a fase de aprendizagem, falhamos muitas vezes; enquanto estudantes, desperdiçamos levianamente a oportunidade de nos equiparmos melhor, desistindo a meio ou perdendo tempo com desvios, na tentativa de anteciparmos o estatuto de adultos auto-suficientes e independentes. E onde é que isso nos leva? Depois, entramos no mercado de trabalho absolutamente convencidos que uma licenciatura nos leva ao lugar mais alto do pódio, quando afinal, somos só mais um na imensa máquina laboral. Levamos algum tempo a perceber que um curso superior não nos faz melhores que ninguém, sendo tão descartáveis como qualquer outro menos preparado.
Entretanto, crescemos. Constituímos família ou algo parecido com isso, exceptuando os casos em que temos medo de arriscar e preferimos ficar sozinhos, ignorando que, nesse momento, os nossos verdadeiros problemas começam. Se optamos por ser independentes, mais cedo ou mais tarde, acabamos frustrados ao não conseguirmos descobrir um verdadeiro objectivo para a nossa vida. Vagueámos entre conhecimentos e amores esporádicos, na expectativa de aparecer alguém que nos faça investir no futuro, ou embrenhámo-nos de tal maneira num projecto de trabalho que nos esquecemos que existimos. Se optarmos por dividir os nossos anseios e projectos com alguém, corremos o risco de não estar na mesma sintonia, desperdiçando o nosso tempo com responsabilidades acrescidas, adiando objectivos que nunca serão concretizados. Ou então temos sorte, e conseguimos encontrar alguém que ouça a mesma música e pense da mesma forma, caminhando ao nosso lado em todas as páginas da nossa história. Seja qual for a nossa escolha, a vida passa… e, mal ou bem, vamos escrevendo capítulos atrás de capítulos, saltando as pedras que nos vão aparecendo, com mais ou menos dificuldade.
Um dia, descobrimos que envelhecemos… a convicção e a certeza de que íamos conseguir ser imprescindíveis, começa a parecer-nos uma miragem, quando ganhamos consciência de que fazemos parte de um imenso oceano e somos só uma gota de água. A motivação deixa de existir e passamos a sentir pena de nós próprios, por tudo aquilo que poderíamos ter feito e não fizemos, pelo que deveríamos ter arriscado e não arriscamos, ou então, felizes por termos contribuído com a nossa parte. Os cabelos brancos ou a falta deles avança inexoravelmente na nossa cabeça, e percebemos que somos só seres humanos… e, nesse momento, olhamos para trás, fazemos uma retrospectiva da nossa história achando que, se calhar, poderíamos e deveríamos ter feito algo de forma diferente e, embora sem sabermos exactamente o quê, acabamos por passar o resto dos nossos dias nessa dúvida.
Finalmente, aceitamos reconhecidos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, perdoamos os nossos próprios erros e tentamos ser felizes, durante o tempo que nos restar… acabando por escrever a nossa história que, afinal, é comum e igual a tantas outras…

A perda Publicado no Correio do Minho a 19/04/2011

Escrever sobre a perda é sempre complicado. De uma forma ou de outro, já todos perdemos alguém que amamos muito, em alguma altura da vida. Todos sabemos que é difícil, que é um momento que queremos rapidamente esquecer, ou fazer de conta que não existiu… porque nos dilacera a alma, nos arranca o que tínhamos de mais certo, abana toda a nossa estrutura mental, faz-nos duvidar da justiça divina e, acima de tudo, questiona-nos sobre a necessidade da nossa própria existência. A perda dói e destrói, à medida que vamos tomando consciência de que perdemos para sempre as pessoas que fizeram parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, de nós! Quando finalmente o tempo passa e conseguimos interiorizar a nossa dor, ficamos vazios e sem vontade para começar de novo, não encontrando qualquer sentido para a vida.
Aparentemente, enquanto adultos, somos todos independentes e capazes de ser felizes individualmente, acreditando na velha máxima que a felicidade é um estado de alma solitário e que, para sermos felizes, basta que queiramos, que só depende de nós! Eu afirmo que é mentira! Uma enorme e cruel mentira em que acreditamos, principalmente, nos dias em que tudo corre bem e temos as pessoas que amamos à nossa volta, pois imaginamos que elas estarão sempre lá. Mas… no dia em que, por este ou aquele motivo, deixam de estar, percebemos que a nossa vida também gravitava à volta delas, que afinal, eram muito mais importantes para nós do que aquilo que pensávamos. Nesse momento, questionámos se somos assim tão independentes ou não…
Lentamente sentimo-nos desprotegidos, perdidos na nossa solidão e amor-próprio, e a motivação que nos “obrigava” a fazer coisas, a pensar e a por tudo em causa, a cumprir compromissos chatos, a criar obras de arte, a trabalhar, desaparece como fumo ao vento. Tudo nos parece insípido, desnecessário, perdemos a vontade de acordar no dia seguinte, sentimos até a falta daquele homenzinho que nem sabemos o nome, mas que nos cruzávamos todos os dias de manhã, das buzinadelas e das travagens bruscas dos automóveis, do irritante barulho das crianças a gritar, das discussões sobre os resultados dos jogos do fim-de-semana, do telefone sempre a tocar, dos cheiros das ruas após a chuva, de tudo… sem percebermos como nem porquê, passamos a sentir a falta de tudo, das coisas mais básicas, das coisas que nunca olhávamos uma segunda vez! No dia em que atingimos o limite, e batemos no fundo da nossa tristeza, tudo recomeça novamente… e aceitámos a perda. Só nesse momento, que varia de intensidade e de duração de pessoa para pessoa, começamos a sentir saudades de quem perdemos. Conseguimos até sorrir e olhar para a frente, com a certeza que, quem amamos e perdemos, esteja onde estiver está connosco em todos os momentos. Agarramo-nos a recordações, às vezes físicas, outras gravadas na memória, percebendo que são esses “pedaços” que guardamos, que vão criar os alicerces para começarmos de novo, voltando a acreditar que existimos por alguma razão.
Quem amou e perdeu, viveu… rezam os pensadores e filósofos em todos os seus escritos. A verdade é que também era impossível ser de outra forma, pois quem não amou, também não sente a perda, aceitando-a como algo inevitável e sempre presente. Esses são os fatalistas, que têm tanto medo de viver e de arriscar amar alguém, que preferem ter as verdades incontestáveis à cabeceira, guiando-se como se de uma bíblia de premonições e certezas se tratasse. Até há quem diga que são os únicos verdadeiramente felizes, pois nunca ultrapassam a barreira da dor e da perda… não amando, nunca, ninguém.
Para mim, são só pobres de espírito…
Finalmente, resignamo-nos e voltamos a amar, conscientes que não iremos vencer a batalha da vida, mas que, ela também não faz sentido, se nos deixarmos afundar nas nossas lágrimas e na nossa tristeza. Cada dia que passa, passa a ser uma vitória sobre a nossa capacidade de nos levantarmos, de sorrirmos, de acreditarmos e devagar, muito devagar, reservamos um cantinho no nosso subconsciente para quem amamos e perdemos. E, se olharmos para o lado, descobrirmos alguém sozinho e lhe estendermos a mão, iremos saber e sentir que, um dia, alguém também sentirá a nossa falta…

Exposição Vieira do Minho 2008 ( Abril )