terça-feira, 20 de agosto de 2013

"O Elefante azul"


“Impressionante! O elefante saltava de onda em onda, como se soubesse exatamente onde estavam as pedras. Sim! Porque era impossível não haver um manto de pedras por baixo daquele mar imenso… ou era possível? Não sei. O que sei é que naquela imensidão escura e feia, a única coisa linda era mesmo o brilho azulado do bicho, a saltar de um lado para o outro. Senti os olhos húmidos e esfreguei os olhos com força… e pronto! O elefante azul desapareceu! E desapareceram as ondas! E desapareceu o mar… ficando só o esplendor do sol a queimar-me a pele. Por momentos, senti que precisava de sair dali… eu já tinha ouvido um monte de histórias de gente queimada pelo sol que, mais cedo ou mais tarde, sofria doenças dolorosas, ou mesmo fatais, e não queria acabar como elas. Infelizmente, a divina providência, ou lá o que era, veio em meu auxílio e, sem perceber bem como, começou a chover torrencialmente, o que me obrigou a levantar como uma mola…” 
Gesto que me fez tropeçar e embater, violentamente, no guarda-vestidos ao lado da cama. Merda! A merda dos sapatos, às escuras e uma pancada com a cabeça no móvel. Pior ainda. A minha mulher acorda, sobressaltada e acende a luz do candeeiro. O blá blá do costume, a cara irada de raiva, meia dúzia de insultos, e eu digo-lhe que está tudo bem, que durma pois tive só um pesadelo chato. Viro-lhe costas e enfio-me no quarto de banho, deixando-a a resmungar sozinha. O silêncio acaba por vencer, enquanto me deixo estar sentado na sanita, sem vontade de ter mais uma discussão. O que é que ela sabe? Nada! Nada de nada! Levanto-me quando a ouço ressonar e abro a torneira do lavatório, deixando correr a água lentamente. Recuso-me a olhar de imediato para o espelho, mesmo sabendo que vou acabar por fazê-lo. Esfrego a cara e os braços vigorosamente e, durante uns minutos, a sensação de frescura ajuda-me a perder a sensação de pele queimada. Finalmente, olho-me ao espelho… sou eu, sim. Claro que sou eu! Belo e único. Um ser perfeito, sem mácula ou defeito que se possa apontar. Sorrio e o espelho corresponde, sorrindo-me também. Ótimo! 
Estou melhor, mais calmo e animado. Volto a deitar-me sem qualquer ruído, as molas do colchão não contam, sentindo a minha mulher virar-se para o outro lado. Instintivamente, ela afasta-se evitando encostar-se a mim. Problema dela. Fiquei o mais quieto possível, a respirar lentamente, a tentar adormecer sem pesadelos de elefantes, de mares, de sóis de preferência, o que não é fácil... e o despertador toca, e toca, sem controle nenhum! Não acredito que já são seis da manhã! Estendo a mão e desligo-o, de uma forma automática e sempre surpreendido por aquele barulho infernal não acordar a minha mulher! Talvez esteja tão habituada a ouvir aquela porcaria que já nem liga nenhuma. Ainda antes de me mexer da cama, já sinto as pernas cansadas, moídas. Tem que ser. Levanto-me, entro na casa de banho e fecho a porta. E apanho um susto tremendo quando me olho ao espelho. Aqueles olhos tão mortiços, tão encovados são os meus? O meu verde límpido, que em tempos encantou meia prole feminina deste mundo, desaparece com meia dúzia de noites mal dormidas? Bem, devo ser eu a exagerar… de certeza que, se quisesse, ainda conseguia conquistar qualquer uma! Lavo a cara, desfaço a barba e visto-me meio às escuras.
Pico o ponto, exatamente às seis e meia, ponho o meu melhor sorriso, o amarelo não conta, e começo mais um dia de trabalho. Como habitualmente, os meus colegas também estão meio a dormir, pelo que ninguém se apercebe do meu cansaço. Lanço para o ar umas graçolas, comento o jogo do Sporting da noite anterior e, devagar, devagarinho, vou organizando o dia de trabalho de toda gente. Afinal, estão sob a minha responsabilidade. Por algum motivo que não tenho bem a certeza, lidero uma equipa de homens e mulheres, alguns mais velhos e mais burros que eu, mas lidero. Meia hora depois, com o ritmo de trabalho já instalado, estou cheio de estar ali! As pernas tremem-me como gelatina. Os olhos fecham-se-me sem contar e a merda da comichão espalha-se pelo corpo todo. Olho em volta e, quando percebo que não estão a olhar para mim, esgueiro-me sorrateiramente e enfio-me no quarto de banho. Fecho a porta à chave. Ali no trabalho, não dá para facilitar. Eles, os monstros todos, estão ali à volta, só mesmo à espera que eu dê um passo em falso para me comerem vivo! Mas não! Não vão conseguir! Eu sou muito mais esperto do que eles todos juntos… Volto a passar água na cara, componho a camisa e a gravata no meu melhor estilo, afivelo o tal sorriso e saio. Ninguém deu pela minha falta, naqueles quinze minutos. Ótimo! E para as seis da tarde, já não falta assim tanto! Só onze horas, mais coisa, menos coisa.
O dia passa num turbilhão de gente a correr para não perder os últimos produtos; como se a fonte estivesse a secar ou o stock no fim. Obviamente que não! Era a pressa, o frenesim da competição, a caça ao mais apetecível pedaço do que quer que fosse, mesmo de coisas que não precisavam para nada mas que, se não as comprassem, o cliente ao lado iria comprar. E ninguém quer ficar para o fim, pois não? Enquanto percorro os intermináveis corredores da loja, vou olhando disfarçadamente para o relógio, à espera que tudo aquilo acabe, que o dia chegue ao fim! O olho grande, na forma de minúsculas câmaras de vigilância espalhadas por todos os cantos, segue os meus passos, um a um. Ninguém me tinha dito, mas eu tinha a certeza disso! Os maiorais afirmavam que a vigilância era para os clientes, principalmente os que entravam com sacos grandes e mãos ligeiras e trocavam o lugar dos produtos, entre as prateleiras e os sacos. Mas era mentira! Uma refinada mentira! Eu sabia bem o que os gajos lá de cima, sentados nas suas cómodas cadeiras e de olhar fixo nos visores estavam realmente à procura... Apanhar-me a mim ou outro colega, encostado a dormitar a um canto ou a fazer de conta que trabalha e pôr-nos na rua!
O almoço! Uma pausa de uma hora que, mal saía e respirava um pouco de ar puro voltava a entrar. Se bem que não me fazia grande diferença, pois comer não me dava gozo nenhum, nem que fosse lagosta ou leitão. O que nunca era, já que o dinheiro nunca chegava para nada. Passava pela mesa, olhava para a comida e sentia-me enjoado, com vontade de sair de casa e voltar para o trabalho. E depois, não sei porquê, era sempre eu que apanhava bicharada nas alfaces, nas maçãs, na sopa. E reclamava, como é natural! O que não adiantava nada; que estava a ficar maluco, que só arranjava desculpas para não comer, que estava magro como um cão, enfim, que eu é que era complicado. Alguns dos meus amigos, se é que podia chamar isso aos gajos que paravam comigo ao fim da tarde no café para uma merecidas cervejas, diziam que eu, ultimamente, estava a ficar mais magro. Que teria perdido uns dez quilos nos últimos quatro ou cinco meses. Ridículo! Eu sabia bem que estava ótimo, com o peso ideal e equiparado a qualquer modelo masculino da moda! E aqueles gajos não tinham espelhos? Cambada de inúteis, nenhum se aproveitava! Se tivessem que trabalhar no duro como eu para sustentar uma casa, uma mulher, dois filhos, uma infinidade de prestações disto e daquilo, iam saber o que era a vida! E descobrir os motivos de estar mais magro! Tinha que estar, não?
Regressei para uma tarde igual à manhã. Talvez pior um pouco, pois à medida que as horas iam passando, a minha ansiedade aumentava na mesma proporção. Sentia as comichões a incomodar mais um bocado e ignorava a tremura das mãos facilmente. Pegava neste produto, ou noutro qualquer, mudava-o de um sítio para o outro, mexia-me de um lado para o outro, entrava e saía do armazém sempre com uma atitude frenética, obrigando os gajos do olho grande a estarem constantemente em movimento. Deviam ver-se gregos para me acompanhar mesmo com a muleta das câmaras! Eu sou muito esperto... está ainda para nascer o gajo que me apanhe a dar um passo em falso! Eu controlo tudo! Eu vigio a minha retaguarda minuto a minuto... a mim não me hão de apanhar, nunca!
Finalmente acabou por hoje. Na hora certa, diga-se. Entrei no carro e voltei para casa. Ou melhor, para o café por baixo da minha casa. Agora, era o meu momento de relax. Sentar-me sossegado com uma cerveja bem gelada na mesa e ler os jornais do dia. Principalmente, os diários desportivos, já que as noticias do mundo real não me interessavam muito. Queria lá saber de atentados no Iraque, das guerrilhas no Sudão, da queda das bolsas europeias, das ameaças dos coreanos ou das inaugurações das Agropecuárias. Tudo treta! Tudo gente cheia de massa nos bolsos, a chatear os tesos como eu. Na página vinte e seis, acho, achei piada ao valor das transferências dos jogadores de futebol. Aquilo só dava mesmo para rir. Absurdo! Bem, era um absurdo, mas o que podia eu mudar? Nada! Uma hora depois e a meio da terceira cerveja, o meu puto veio chamar-me ao café. Pensei num palavrão feio, mas engoli-o. “A mãe está a dizer para subires, vamos jantar. E então, pai? O dia correu bem? Tiraste as cópias que te pedi? Hoje levas-me ao treino?” Fiz um esforço para me controlar e não correr com ele para casa. “Senta-te aí, pá! Queres uma coca-cola?” “Fixe, pai!” Ainda assim, olhei para as moedas que tinha no bolso a ver se dava para a despesa, sem que o meu rapaz se apercebesse. Três cervejas, uma coca-cola, três euros e setenta. Bem, não chegava. O que valia era que o moço do café, um gajo porreiro, já me conhecia e confiava em mim. E amanhã também era dia!
Subimos juntos. Eu já estava um pouco toldado, mas bem-disposto. Mais um esforço e mais um dia que estava ganho. Ou adiado, já que agora era difícil disfarçar o tremor das mãos e a incomodativa comichão que me assolava o corpo. Despachei rápido o jantar e desci para ver o futebol no café, com o meu rapaz atrelado a mim! Não que me interessasse muito, mas era uma boa desculpa. Deixei o puto no treino e entrei no meu mundo perfeito. Sozinho, divaguei por lugares mágicos e quentes, por lugares nunca antes viajados, por desejos e sonhos lindos e possíveis.
“As cobras entravam e saíam pelos buracos do meu corpo. Devagar, percorriam cada veia, cada artéria, insinuando-se dentro de mim como se o meu corpo lhes pertencesse. Prometiam a paz, a serenidade, com as flores a crescerem livremente nos jardins e as andorinhas a voarem no céu. Adorava aquela sensação. Olhava para elas, lentas, suaves, umas esverdeadas, outras amareladas, outras ainda com uns risquinhos vermelhos a marcarem os anéis perfeitos da pele brilhante e escorregadia. Eu via-as debaixo da minha pele… olhei para os meus braços e vi, distintamente, as sacanas a subirem desde os pulsos até aos cotovelos. Ah, mas nas pernas é que era um verdadeiro espetáculo! Várias ao mesmo tempo, eriçavam-me os pelos, davam-me tesão, subiam-me pelas pernas acima, davam-me sossego, faziam de mim aquilo que nenhum ser humano conseguia. Euforia! Poder! Quem diria que bichinhos tão repelentes para a maioria das pessoas, a mim me davam a impunidade do prazer? Transmitiam-me confiança, transcendiam as minhas capacidades, elevavam-me às nuvens! Ri-me sozinho, à medida que as tremuras das mãos iam desaparecendo, que o cansaço se perdia no esquecimento, que jurava para mim mesmo que era a última vez…”
Saí da garagem com cuidado, não fosse algum parvalhão dos meus vizinhos me ver e achar estranho um homem sair sozinho da garagem, sem carro, às dez da noite. Enfim, até de mim próprio eu tinha que me esconder! Subi, airoso e animado, até gracejei com a mulher e com a miúda que tinha acabado de chegar da faculdade e fui-me deitar. Antes, ainda bebi um gole de um bom bagaço que tinha para lá escondido na garrafeira e ouvi a patroa a queixar-se da falta de detergente para a máquina de lavar louça. Como? O que tinha eu com isso? Era tudo para mim? Não chegava ter que trabalhar o dia todo e ter que ganhar para aquilo tudo? Ainda tinha que me preocupar com a merda do detergente? Fiz ouvidos moucos e virei costas, levando comigo um chorrilho de tretas, mais ou menos intensas. Não liguei nenhuma! Hoje não! Tinha que me deitar, antes que as tremuras e as comichões voltassem e se tornasse incontrolável a vontade de “viajar” outra vez…
“A cabeça batia contra a parede, ao mesmo tempo que a parede batia contra a cabeça. Achei estranho não haver sangue até que, finalmente, percebi porquê. Não era eu! Alguém, do outro lado da minha memória, vingava-se no betão e ria-se perdidamente. Era, obviamente, muito mais forte, muito mais duro, indestrutível. Se assim não fosse, aquela cabeça estaria pior que um melão maduro esborrachado no chão! Eu fiquei sentado, muito quieto entre as sombras do muro, na expectativa de ver como aquilo acabava. Das duas, uma! Ou desistia o homem, ou desistia a parede… o homem acabou por adormecer, deixando-se escorregar pela parede abaixo, mergulhando num sono leve e agitado, estremecendo sem cessar como se os demónios estivessem a comer-lhe as entranhas. Se calhar, estavam mesmo… que se lixe! Não era nada comigo! Limitei-me a sentir pena do homem, da loucura que exprimia, tive pena da parede e fui-me embora!”
Acordei banhado em suor. Ainda era noite cerrada. Pelo canto do olho, vi que o relógio do despertador marcava quatro e vinte da manhã, sendo que os únicos ruídos eram os carros a passar velozmente na avenida. As pernas doíam-me. As mãos suavam e sentia os olhos pesados. Precisava, desesperadamente, de descansar, esquecer os meus problemas e encarar o dia seguinte com coragem. Descobrir formas de pagar todas as contas, sem ter que pedir dinheiro a este e àquele. Ok! Tinha uma família, mas longe da minha realidade. O que sabiam eles? Levantei-me e fui até à varanda, onde me sentei na velha cadeira de plástico e fiquei ali, no silêncio da noite, às escuras, tentando ver alguma coisa para além de mim próprio… mas era difícil. Os meus dias começavam e acabavam sempre da mesma forma, sem qualquer objetivo que não fosse acordar no dia seguinte e tentar que ninguém me conhecesse por dentro… e amanhã? Ou melhor, daqui a pouco? Quando o dia nascesse e tivesse que ir outra vez trabalhar? E no fim do dia, fazia o quê? Voltava a ficar a dever ao gajo do café? Comecei a magicar… a ter ideias, a pensar em soluções… e levantei-me, sorrateiro, aproveitando a fraca luz que entrava no quarto. Silenciosamente, descobri a carteira da minha mulher pousada na cadeira. O meu coração acelerou, disparou como uma bala perdida, na expetativa de não ser apanhado em flagrante. Ali não tinha hipótese. Estava escuro e, ao mais pequeno ruído ela iria acordar, o que levaria a uma tremenda discussão. Peguei na carteira, abri a porta do quarto e, o mais silenciosamente possível fui até à cozinha, onde liguei a luz e antecipei o prazer de ter dinheiro no bolso. Abri a bolsa, procurei o porta-moedas e, sorrindo abri-o de par em par. Vazio! Vazio? Nada de nada! Nem uma única moeda! Tirei tudo para fora e fui espalhando na mesa da cozinha, lenços de papel, o telemóvel dela, a carteira com os cartões de multibanco, do supermercado, das lojas de marca, dos descontos nas bombas de gasolina, do ginásio que já não frequentava há dois anos, o cartão de cidadão. Todos, menos dinheiro! Nem moedas, nem papel. Nada! A bolsa dos óculos! O esconderijo perfeito! Abri-o, convencido que tinha descoberto a pólvora. Nada, novamente… uma estranha sensação de ter sido enganado, começou a apossar-me dos meus pensamentos, associado a um receio irracional de ser apanhado ali na cozinha, com aquela bagunça espalhada na mesa. À pressa, meti tudo novamente dentro da carteira e, pé ante pé, voltei a pousá-la na cadeira do quarto. Caramba! Ainda ao jantar me tinha dito que só tinha trinta euros até ao fim do mês… e onde estavam? Nem sequer tinha saído de casa, não os podia ter gasto. Escondeu-os! Claro! Só os podia ter escondido… que merda é esta? Não era eu o único que ganhava dinheiro ali? Esconder o meu próprio dinheiro? Apeteceu-me esganá-la enquanto dormia… Respirei fundo, várias vezes, tentando controlar a minha raiva, acabando por me deitar e tentar esquecer aquela passagem noturna. Deus tira, mas também dá…
À hora habitual, o despertador. Ao fim de alguns anos naquilo, já se tinha tornado num amigo, embora fosse daqueles amigos difíceis de aturar. A rotina de sempre, um banho rápido e indesejado, a roupa às escuras e um novo dia de trabalho pela frente. Felizmente era sábado, o que significava que era o último dia da semana. Antecipei um fim de tarde e noite engraçados, mas para os ter, teria que inventar dinheiro. Bem, saí de casa depois de dar uma espreitadela nos quartos dos miúdos. Dormiam como justos… A minha cabeça voava entre a forma de conseguir arranjar dinheiro e o almoço de domingo, mais uma valente seca inventada por um tio mais velho, irmão da minha mãe e arvorado em patrono familiar. Enfim, mais um dia perdido em que teria que disfarçar um prazer que não tinha, uma máscara de alegria e felicidade que poucos imaginariam ser uma mentira. Eu queria lá saber deles! Nunca me ligaram nada! Nunca se interessaram se eu ou a minha gente estávamos bem, se precisávamos de alguma coisa, nada! Sempre me senti a ovelha ranhosa da família e, se me perguntassem porquê, não fazia a mais pequena ideia. Ou talvez fizesse…pois, também não queria saber deles, para nada! Durante os cinco minutos que demorei até ao trabalho, pensei que talvez os miúdos fossem a solução… aqueles colares de prata, aqueles anéis que o namoradito da rapariga lhe ia dando, talvez dessem alguma coisa. E, eram já alguns, pelo que dariam para uns momentos bem passados! Um pouco mais animado, passei o dia no trabalho a magicar na forma de lhos tirar, sem que ela desse conta ou me relacionasse com isso. Não era difícil! E o porquinho do miúdo também teria algumas moedas, de certeza! Ele andava a juntar as prenditas que lhe iam dando para comprar um jogo novo para a consola. Até a mim já me tinha pedido e eu, feito parvo, tinha-lhe dado três euros que me faziam falta agora.
O fim da tarde chegou, tal como determinado pela natureza. Com ele, toda a minha ansiedade. Entrei em casa sorridente, com a ideia fixa de despistar os putos e ter oportunidade de procurar no quarto deles. Tive sorte! Só estava em casa a minha mulher que, após um custoso “correu bem?”, voltou para a cozinha e para a preparação do jantar. Eu agradeci silenciosamente a sua estupidez e, um minuto depois, estava a tirar a tampa de plástico do fundo do porquinho. Maravilha! Dezasseis euros em moedas. Bom! Muito bom! Enfiei-as rapidamente no bolso das calças, voltei a meter a tampinha e saí do quarto dele, com um sorriso de orelha a orelha. A mesma sorte no quarto da miúda, e eu tinha o dia ganho… oh, Deus dos deuses, ela tinha uma nota de vinte euros muito bem dobradinha, escondida dentro de uma carteira no guarda-vestidos. E as pratas! Metidas num cofrezinho de vime, a imitar um guarda-joias, dois colares e dois anéis. Fraquinhos, mas que no conjunto, deviam valer outros vinte euros. Parei uns segundos, tentando ver se vinha algum ruído da cozinha, mas nada… ótimo! A minha ideia tinha sido genial. De um momento para o outro, de nada tinha passado a ter, pelo menos, cinquenta euros no bolso. Podia haver algo melhor? Duvido…
“A guerra ou a paz… que diferença fazia? Afinal, fosse de que forma fosse, estávamos todos tramados, todos iríamos morrer um dia… Eu fiquei ali, no paredão, sentado, a ouvir o grasnar esganiçado das gaivotas, a sentir o vento bater-me com força na cara e a rir-me das baleias a tentarem entrar pela praia dentro. Aqueles corpos gigantescos, a espumarem frustração e raiva, feitos minúsculos caranguejos a meterem o focinho na areia… Azul, amarelo, verde ou vermelho, as cores passavam-me em frente dos olhos e o bem-estar era indiscritível. Eu sou o único, o maior! Sexo? Isso é o quê, comparado com a luz eterna que sinto dentro de mim? Quem, no seu perfeito juízo, pode avaliar a força de um homem? Ah, chegou o elefante! Grande, imponente, azul, postou-se sentado na borda do mar a observar a ginástica das baleias e o seu esforço para entrarem na praia. Se aquilo não era um riso gutural e cavernoso, era lá perto! O sacana riu-se mesmo! E sem pruridos ou respeito algum, agitou a tromba para a direita e para a esquerda e correu com a baleias para o mar, obrigando-as a fugir a sete pés! A mim convenceu-me… adorei o bicho, o seu poder, o seu gozo…”
Quem sou eu? Domingo, deitado, sem o despertador, a olhar o teto pintado de restos de sangue de mosquitos e a rever a minha vida, a pensar no fundo do poço das minhas ilusões. A ouvir as queixas do miúdo à mãe, do porquinho vazio, do frenesim da miúda á procura das suas simbólicas joias, da solidão do meu silêncio, da vergonha das minhas tremuras e do meu medo de ser descoberto. Era uma questão de tempo, de horas, de minutos até alguém se lembrar de mim… neguei tudo, claro! Como era possível eles pensarem que eu faria uma coisa dessas? Tudo aquilo era meu ou não, caramba? Porque faria eu uma coisa dessas? Insurgi-me e fiquei revoltado, levantei-me, vesti-me e saí porta fora. Precisava de um Martini! Ou uma cerveja! Ou a merda de um amigo qualquer que me pagasse um café! Um turbilhão de pensamentos enchiam a minha cabeça e quando entrei no café, sem um tostão no bolso, senti o olhar acusador do gajo porreiro. Nunca me via de manhã, era visível a sua surpresa, a sua cobrança implícita… Pedi-lhe mais um dia, mais uma oportunidade. E ele, de alguma forma, não foi capaz de me dizer que não, talvez a pensar na minha mulher, nos meus filhos…
Depois de um café simples, uma vista rápida pelos jornais, deambulei durante muito tempo vários quarteirões perto de casa, afastando de mim os pesadelos das noites mal dormidas, das acusações sem palavras, das histórias mal contadas, das mentiras diárias e constantes. Pensei na minha pobre mãe, nos seus antigos e amigáveis sonhos e planos para mim, nos meus ingénuos e crédulos irmãos, no meu falecido e amado pai, nos meus adormecidos projetos para o futuro. Pensei em toda uma vida que eu queria ter vivido, mas que por crueldade do destino, nunca consegui. Do destino? Não, não foi o destino que me empurrou para o abismo…fui eu, sozinho…
Parei num banco de madeira, num jardim qualquer, e sentei-me. Nada fazia sentido, nada tinha significado. Senti-me um trapo velho… amargurado demais para levantar a cabeça, vazio demais para olhar os outros de frente, angustiado demais para acreditar que ainda era possível, cego demais para conseguir ver que alguém ainda me amava, triste demais para acreditar em algum futuro, desanimado demais para começar de novo, descrente demais nas minhas próprias forças e, acima de tudo, envergonhado demais para aceitar a minha realidade… e chorei. Chorei sem tempo, sem limites…
Lentamente, fui regressando à vida e a casa. De alguma forma era o único sítio para onde podia ir. Não tinha mais nada, nem ninguém. Com os pés no chão e, por muito cego que estivesse, não existiam elefantes tão poderosos, nem cobras tão bonitas, nem êxtases tão intensos, nem baleias perdedoras… só existia eu, os meus medos, os meus demónios, os meus pesadelos. Mesmo evitando a pergunta, mesmo tendo medo de saber a resposta, mesmo sabendo que não havia resposta, era inevitável… quem sou eu, afinal?
Não sou ninguém… Benvindo ao meu mundo… ao mundo de um viciado em cocaína…


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